Saci-Pererê

Saci-Pererê

O Senhor dos Redemoinhos

Quem segue o assobio nunca chega a lugar nenhum.

PRONÚNCIAsa-SI-pe-re-RÊ

ORIGEMTupi-Guarani / Afro-Bantu / Ibérico

APURAÇÃOalta

Debaixo da travessura leve mora a memória de três povos que a versão vencedora tentou reduzir a uma só.

NO ARCADEPeça 2 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

Menino negro de uma perna só, gorro vermelho mágico e cachimbo sempre aceso, o Saci nasce do cruzamento entre a ave de mau agouro dos tupis-guaranis, o trasgo português e a herança africana do Brasil colonial. Suas travessuras são pequenas, nós na crina dos cavalos, leite azedo, chapéus derrubados, mas quem tenta contar sua história de um jeito só está sempre simplificando demais.

ARTBOOK

Adriano Augusto, cores · Bruno Oliveira, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

7 parágrafos · 3 min de leitura

Antes de ser garoto, o Saci já era pássaro.

Entre os tupis-guaranis da região das Missões, no extremo sul do país, contava-se de uma ave mística chamada Matintaperera: arauto de mau agouro, carregadora da alma dos mortos, dona de um assobio capaz de confundir qualquer um que andasse sozinho pela mata. O canto ora soava perto, ora distante, e quem tentava segui-lo se perdia entre as trilhas sem nunca alcançar a origem do som. Essa ave viajou com as tribos que fugiram da colonização, espalhando-se por todo o território, e foi essa mesma entidade, segundo quem estuda sua origem, que ganhou pernas, gorro e cachimbo ao entrar em contato com a experiência negra e portuguesa do Brasil colonial.

O Saci que se conhece hoje nasceu desse cruzamento de três matrizes. É menino, é negro, tem uma perna só e usa uma carapuça vermelha que lhe dá poderes; herança direta do píleo mágico do trasgo português, entidade dos gorros escarlates de Trás-os-Montes. Fuma cachimbo e cobra fumo de quem passa, hábito emprestado da Caipora, guardiã mais antiga da mata. Falta-lhe a perna: tradição que, no folclore ibérico, marca entidades tidas por demoníacas, e o Saci compartilha essa mutilação simbólica com o Curupira (pés virados), o Pé de Garrafa e o Capelobo, um catálogo de deficiências físicas que o imaginário colonial usou para sinalizar o que considerava monstruoso.

Suas travessuras são pequenas e constantes: derruba chapéus, some com objetos de dentro de casa, faz nós impossíveis de desfazer na crina dos cavalos, azeda o leite deixado de fora, atormenta o gado durante a noite até acordar a casa inteira. Ri de tudo isso. Não é cruel; é inconveniente, na medida certa para nunca deixar ninguém completamente em paz.

Existem pelo menos três tipos reconhecidos. O Saci-Pererê, com a carapuça e o cachimbo já descritos, é a forma mais difundida. O Saci-Trique troca o assobio por um estalo seco de galho quebrando, com o mesmo efeito de parecer perto e longe ao mesmo tempo. O Saci-Saçura tem as duas pernas e olhos vermelhos, variante mais rara e menos comentada. Sua presença também se anuncia sem forma alguma: um redemoinho de vento repentino, sem explicação nenhuma em dia de sol forte, já é sinal de que ele está por perto.

Prendê-lo exige um gesto específico: jogar uma peneira, um terço ou um rosário dentro do próprio redemoinho. Rezar um Credo inteiro também funciona. Alho o mantém à distância, e, segundo quem já tentou, há muito ser sobrenatural nesse país que não gosta de alho, mas nenhum tanto quanto o Saci.

No início do século XX, essa figura de origem plural, indígena na base, africana e portuguesa na formação, foi capturada por Monteiro Lobato, que em 1917 promoveu um inquérito entre os leitores de O Estado de S. Paulo para levantar variações do mito. O resultado virou livro, e o livro virou a versão mais reproduzida do Saci no imaginário nacional: gentil, travesso, seguro para consumo infantil. É a mesma figura, mas domesticada; a mesma perna, a mesma carapuça, o mesmo assobio, sem o peso de ser, antes de tudo, um menino negro nascido de três cosmologias que a versão vencedora preferiu simplificar em uma só.

Aparência física

Estatura pequena, corpo de menino negro, uma perna só; a outra simplesmente não existe, sem coto visível, sem explicação física registrada. Carapuça vermelha na cabeça, item mágico sem o qual perde os poderes; quem consegue roubá-la ganha um desejo em troca da devolução. Cachimbo sempre aceso na boca. A variante Saci-Saçura tem as duas pernas e olhos vermelhos; o Saci-Trique mantém a forma clássica, mas sua chegada se anuncia por um estalo de graveto em vez de assobio.

Comportamento e hábitos

Passa o dia inteiro inventando pequenas desordens: derruba chapéus de quem passa, esconde ferramentas, faz tranças impossíveis de desfazer na crina dos cavalos, agita o gado durante a noite, troca o sal pelo açúcar na cozinha, azeda o leite deixado de fora. Assobia, ou estala um graveto, no caso do Trique, para confundir viajantes noturnos, deixando o som ora perto, ora longe, até a pessoa se perder de vez. Anuncia-se também como um redemoinho repentino. Ri de tudo o que faz; não guarda rancor nem busca prejuízo grave, vive da confusão pela confusão.

Como aplacar

Abastecer seu cachimbo é a forma mais direta: como se faz com a Caipora, aceita fumo oferecido por viajantes e caçadores em troca de trégua. Não há relato de outra oferenda fixa além dessa.

Fuga e fraquezas

Alho mantém o Saci afastado. Rezar um Credo inteiro também funciona como proteção. Para capturá-lo dentro do próprio redemoinho, o método registrado é jogar no vento uma peneira, um terço ou um rosário; ele fica preso até que alguém o solte, e nesse intervalo é possível negociar ou fugir.