Curupira

Curupira

O Guardião Implacável das Matas

"Muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-n'os e matam-n'os."

PRONÚNCIAku-ru-PI-ra

ORIGEMTupi-Guarani

NOME DE ORIGEMKuru'piracorpo de menino

APURAÇÃOalta

A mata cobra de volta o que se tira sem necessidade.

NO ARCADEPeça 8 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

Vigia dos que entram na floresta, o Curupira tem cabeleira em brasa e os pés virados para trás, pegadas que apontam para onde ele nunca esteve. Não pune quem caça para comer; pune quem mata por prazer, quem abate fêmeas prenhas e filhotes.

ARTBOOK

Marcelo Di Chiara, lápis e arte-final · Wesllei Manoel, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

7 parágrafos · 2 min de leitura

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que o Curupira não é um monstro. É uma lei.

Quem entra na mata para tirar o que precisa, a caça do dia, a lenha da noite, atravessa a floresta inteira sem vê-lo. Já quem entra para matar por esporte, quem derruba a fêmea prenha porque era o tiro mais fácil, quem abate o filhote porque não corria: esse cruza a fronteira invisível do domínio dele, e a floresta muda de natureza.

A punição raramente começa com violência. Começa com um favor. O caçador avista a presa perfeita, parada, exposta, oferecida. O tiro sai fácil demais. E quando ele se aproxima do corpo caído para carregá-lo, encontra ali um companheiro de caçada. Um amigo. Um filho. A mãe. A esposa. O Curupira não precisa matar ninguém: ele apenas empresta ao caçador a própria mira.

Quando prefere o cansaço à crueldade, assume a forma da caça e se deixa ver; sempre à vista, nunca ao alcance. Conduz o perseguidor mata adentro, passo a passo, até que a trilha de volta já não exista, porque ele a apagou atrás dos dois. Homens saem dessas caminhadas dias depois, quando saem. Chamam-no, por isso, de mestre dos sinais falsos, das mentiras e dos enganos.

Os próprios pés dele são a primeira mentira. Virados para trás, imprimem no barro uma direção que não é a dele: seguir o rastro do Curupira é caminhar exatamente para o lado oposto de onde ele está. Quem tenta encontrá-lo já começa perdido.

Mas o mesmo ser que castiga também avisa. É o Curupira quem bate com o calcanhar nos troncos, e o estampido seco que corre pela mata anuncia a tempestade que vem chegando, sinal que ribeirinhos e seringueiros aprenderam a escutar. É pequeno, ágil, extrovertido, e ri alto das próprias travessuras. A floresta que ele defende com violência é a mesma em que ele brinca.

Com ele há acordo. Fumo e cachaça deixados na entrada da mata compram trégua para o lenhador e para o viajante, e os povos indígenas já faziam essa oferta muito antes de qualquer europeu escrever sobre ela, rogando que "não lhes façam mal algum". Quem não trouxe oferenda e precisa de tempo tem uma saída: apanhar cipós e dar nós neles. O Curupira é obrigado a parar e desatar cada um. Não por magia, por natureza. Enquanto desfaz o nó, o homem corre.

Aparência física

Estatura de criança, corpo de menino, é o que o nome diz. Cabeleira vermelha como brasa viva, a marca mais reconhecível junto dos pés invertidos, com os calcanhares à frente e os dedos apontando para trás. Força descomunal, desproporcional ao tamanho.

As variantes regionais acrescentam traços mais estranhos: corpo coberto de pelos, orelhas grandes, dentes azuis ou verdes. Em algumas versões não tem orifício algum no corpo, nem órgão genital. Em outras, tem um olho só, ou é careca, ou não possui articulações, move-se sem dobrar membro nenhum.

Comportamento e hábitos

Patrulha o território e observa antes de agir; quase nunca ataca de imediato. Distingue o caçador de subsistência do predador por esporte, e só o segundo lhe interessa. Tem predileção por punir quem mata fêmeas prenhas e filhotes.

Assobia, grita, imita vozes e assume a forma de animais de caça. Bate os calcanhares nos troncos para anunciar tempestades. Apaga trilhas. Ri das próprias armadilhas, o riso na mata fechada costuma ser o último aviso antes de o caminho desaparecer.

Estende a proteção à flora: quem fere árvore sem necessidade recebe o mesmo tratamento de quem fere bicho.

Como aplacar

Fumo e cachaça deixados na entrada da mata. É o acordo clássico com lenhadores, seringueiros e viajantes: em troca da oferenda, ele não incomoda. Entre os povos indígenas, o costume registrado é o de deixar agrados antes de entrar no mato, pedindo que não lhes façam mal.

Não gosta de pimenta.

Fuga e fraquezas

Nós em cipó. Ele não consegue deixar um nó por desatar; precisa parar e desfazer cada um, e é nesse intervalo que se ganha distância ou se escapa de vez.

Nunca seguir as pegadas dele: apontam para o sentido contrário ao que ele tomou.