
Matinta Pereira
A Velha do Assobio Interminável
"Quem quer?", pergunta ela na mata. Quem responde "Eu quero!" já não é mais o mesmo ao amanhecer.
PRONÚNCIAma-TIN-ta-pe-REI-ra
ORIGEMTupi (variante regional do Pará)
NOME DE ORIGEMMati-taperê“o pequeno morador de tapera (lugar abandonado)”
APURAÇÃOalta
A hospitalidade negada vira desgraça sem prazo, o folclore cobrando o que a vizinhança não cobra sozinha.
Bruxa idosa que se transforma, à noite, em um pássaro agourento, ou numa figura de capa negra que voa sobre os telhados. Pousa em muros e assobia sem parar até que a casa prometa fumo; quem cumpre a promessa nada sofre, quem engana amarga uma desgraça sem data para acabar.
ARTBOOK
Gustavo Duarte; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
5 parágrafos · 2 min de leitura
O assobio começa baixo, quase confundível com o vento entre as árvores. Depois sobe, fixo, alto demais para ser ignorado, vindo sempre do mesmo lugar: o muro do quintal, o beiral do telhado. Quem mora na casa sabe o que aquilo significa antes mesmo de abrir a porta.
Lá fora, pousado, um pássaro de mau agouro observa com paciência. Não sai do lugar, não se cala, não aceita ser espantado. A única forma de silêncio é abrir a porta e prometer: fumo, para quando ela voltar. No instante em que a promessa é dita em voz alta, o assobio para e o pássaro desaparece na escuridão. No dia seguinte, ela retorna, humana ou ainda em forma de ave, dependendo da região, para cobrar o combinado. Quem cumpre, nada sofre. Quem engana uma Matinta Pereira aprende, cedo ou tarde, que a desgraça que cai sobre a casa não tem data marcada nem hora de ir embora.
Há também a versão em que ela chega como uma velha, sentando-se à vista de quem mora na casa, sempre assobiando. Pergunta-se a ela o que deseja, e ela pede fumo e algo para comer. Se recebe, agradece e vai embora, nada acontece. Se é recusada, inventa um pretexto qualquer, quase sempre um copo d'água, só para entrar. Uma vez dentro, os olhos correm pelos móveis, pelos cantos, pelo que tem valor. Na manhã seguinte, sempre falta alguma coisa. Ninguém nunca a encontra de novo.
Ninguém nasce Matinta Pereira por acidente, ou pelo menos é o que dizem os mais velhos. A sina passa de mãe para filha, um fardo hereditário que atravessa gerações de mulheres. Quando não há herdeira disposta a recebê-la, a dona da maldição se esconde na beira da mata e espera. Alguma moça passa, mais cedo ou mais tarde, e a velha pergunta, da sombra: "Quem quer?" Se a resposta vem; "Eu quero!"; o feitiço muda de dono ainda naquela noite, e quem respondeu já não é mais a mesma pessoa ao amanhecer.
Para os tupinambás, a origem é mais grave ainda: dizem ser a alma de alguém que já morreu, retornando do mundo dos mortos disfarçada em pena e bico. Alguns contam que é dela que nasceu o próprio Saci-Pererê, o garoto de perna só e gorro vermelho; mesma habilidade de assobiar perto e longe ao mesmo tempo, mesma vocação para perder viajantes na mata. Onde o Saci prega peças, a Matinta cobra dívidas, e não costuma perdoar quem não paga.
Aparência física
Em forma de ave: um pássaro de mau agouro, às vezes descrito como coruja rasga-mortalha, às vezes como corvo. Em forma humana: uma velha vestida de preto, com mangas compridas que funcionam como asas ao voar sobre vilas e cidades. Existe ainda uma variante masculina, um velho que cobre a cabeça com um pano, toca flauta e também voa, disseminando doenças por feitiçaria.
Comportamento e hábitos
Pousa em muros e telhados à noite, assobiando de forma insistente até receber a promessa de fumo. Desorienta caçadores e viajantes na mata fazendo o assobio soar ora perto, ora longe. Em forma de velha, pede comida e tabaco à porta; se recusada, entra sob pretexto e observa o que há de valor para roubar mais tarde.
Como aplacar
Prometer fumo, ou, em algumas versões, café, cachaça ou peixe, assim que ela se manifesta, e cumprir a promessa no dia seguinte sem falta. É o único acordo que garante que nada de ruim aconteça à casa.
Fuga e fraquezas
Uma armadilha é descrita na tradição popular: enterrar uma chave comum, fincar uma tesoura sobre o local e colocar por cima um rosário bento; qualquer Matinta que passar por ali fica presa, mas deve depois ser libertada e o local varrido com uma vassoura virgem, para que a sina não se espalhe. Diz-se também que, enquanto transformada, ela não suporta ouvir o nome de qualquer divindade, o que desfaz o feitiço.
Notas antropológicas
A Matinta Pereira funciona como mecanismo de controle social disfarçado de superstição: a hospitalidade, dar fumo, comida, água a quem pede, deixa de ser escolha e vira obrigação vigiada por uma ameaça sobrenatural. Quebrar a palavra dada, mesmo a uma velha estranha à porta, tem consequência. É folclore fazendo o trabalho que, numa comunidade pequena e isolada, normalmente cabe à reputação e ao julgamento dos vizinhos.
A estrutura hereditária da maldição, que passa de mãe para filha, ou se transfere a quem aceitar de livre e espontânea vontade, também reflete uma ansiedade específica sobre linhagem feminina e destino compartilhado entre mulheres, um tema recorrente em figuras de bruxa em praticamente todas as tradições folclóricas do mundo, aqui reformulado em código amazônico.
Há ainda a hipótese, levantada pela própria tradição oral, de que o Saci-Pererê, hoje o boneco mais folclorizado e infantilizado do imaginário nacional, teria nascido justamente da Matinta. Se verdadeira, é um exemplo raro de uma entidade adulta, ambígua e moralmente séria, dando origem a uma versão domesticada e simpática de si mesma ao migrar para o Sul e o Sudeste do país, o processo inverso do que costuma acontecer quando o folclore regional é homogeneizado para consumo nacional.
Contexto histórico
O escritor paraense Frederico José de Santana Néri documentou a lenda no livro Folk Lore Brésilien (1889), escrito em francês durante seu período em Paris. Os Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (1886, 1887) registram a confusão de grafias entre civilizados e sertanejos ao tentar reproduzir o nome ouvido na tradição oral. A entidade também é citada em "Águas de Março", de Tom Jobim, e serviu de tema ao enredo da escola de samba São Clemente no carnaval de 2015.
“"O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo [...] tem-lhe alterado o nome; já o fez Çacy-pererê, Saperê, Sererê, Sarerê, Siriri, Matim-taperê, e até já lhe deu um nome português: Matinta-Pereira"”
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.78
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Matinta-PereiraCC BY-SA 4.0

