Caipora

Caipora

O Habitante do Mato de Rosto Incerto

"Ser caipora é o mesmo que ter azar, ter sorte madrasta, ser perseguido pelo destino."

PRONÚNCIAcai-PO-ra

ORIGEMTupi-Guarani

NOME DE ORIGEMKa'a-porahabitante do mato (ka'a, mato + pora, habitante)

APURAÇÃOalta

Descumprir a lei da mata custa mais que a caça perdida: custa a sorte pelo resto da vida.

NO ARCADEPeça 16 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

Guardiã (ou guardião) das florestas montada num queixada, a Caipora protege a fauna com ciladas, assobios e vozes de animal imitadas até o caçador se perder de vez. Tão antiga e difundida que seu nome virou sinônimo de azar na língua portuguesa falada no Brasil; "estar caipora" é não conseguir nada de bom, em caça ou em vida.

ARTBOOK

Ronan Cliquet; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

4 parágrafos · 2 min de leitura

Em Augusto Severo, no sertão do Rio Grande do Norte, uma roda de caçadores assava um tatu no espeto. Já sem vísceras, a carne torrando no fogo, quando uma cavalgada surgiu: a Caipora, montada num porco-do-mato, cortando o acampamento sem pedir licença. Bastou um comando; "Vambora, Jaum!", e o bicho morto saltou da fogueira, inteiro outra vez, e saiu correndo atrás dela. Os dois desapareceram na mata, e ninguém mais os viu. Ressuscitar a caça abatida é um dos poderes que se atribuem à Caipora, e é também o mais didático: mostra, num só gesto, que a floresta sob sua guarda nunca perde de verdade o que lhe é tirado, ela simplesmente toma de volta.

Não existe um retrato único da Caipora, e essa é a primeira coisa que confunde quem tenta descrevê-la. Pode ser homem ou mulher, e as duas versões são igualmente conhecidas. A masculina costuma ser um caboclo atarracado e muito forte, corpo coberto de pelos pretos, montado num queixadão; em Minas Gerais aparece caolho, em Pernambuco com uma perna só, no Sul como um gigante cercado de porcos selvagens. Há quem a veja como um indiozinho ágil e esperto. A versão feminina é uma cabocla brava e bonita, capaz de dar surra de cipó no homem infiel; ou uma mulher negra, ou uma índia, cobertas de pelos e cabeleira comprida, risada estridente, corpo sinuoso. Tanta variação não é falha de transmissão, é sinal de uma entidade tão enraizada que cada região a reconstruiu à sua imagem.

O nome mesmo carrega duas leituras que não se excluem: "habitante do mato" e "espírito mau". Quem a encontra tem azar o dia inteiro; caçador ou pescador mal-sucedido é chamado de "caipora", e a expressão migrou da mata para a vida, vira apelido de quem nunca dá certo em nada. Protetora dos animais da floresta, exceto dos pássaros, cobra pedágio: fumo, pinga, ou mingau sem sal, sem açúcar e principalmente sem pimenta, sentir o tempero na oferenda a enfurece. Quem entra no território sem respeitar os dias proibidos, sobretudo segundas-feiras e o entardecer, ouve seus gritos e assobios como primeiro aviso. O segundo aviso é o ataque, dela mesma ou dos animais que ela comanda.

Regiões diferentes puxam a Caipora para lados diferentes: em algumas, é canibal, devora até quem apenas caça um inseto; em outras, é só a vigia severa que pune o excesso. As duas leituras convivem porque nenhuma comunidade precisou escolher, cada uma guardou a versão que fazia sentido para o seu pedaço de mato.

Aparência física

Sem forma fixa: caboclo atarracado peludo montado em queixada, cabocla de longa cabeleira, indiozinho ágil, ou gigante cercado de porcos-do-mato, dependendo da região. Variações registradas incluem olho único (Minas Gerais) e perna única (Pernambuco). Traço comum entre quase todas as versões: pelagem escura cobrindo o corpo e montaria sobre suíno selvagem.

Comportamento e hábitos

Patrulha a mata montada num queixada, cobrando fumo e pinga de quem entra em seu território. Afugenta a caça, espanca cães farejadores a mando, imita vozes de animais para desorientar viajantes e caçadores. Intensifica a vigilância em segundas-feiras, sextas-feiras, domingos e dias santos, dias em que a caça era tradicionalmente vedada. Pode devolver a vida a um animal já abatido, gesto que funciona como demonstração de poder sobre o que lhe pertence.

Como aplacar

Fumo de corda e pinga deixados no tronco de uma árvore antes de entrar na mata, com a fórmula "Toma, Caipora, deixa eu ir embora". Aceita também mingau, desde que sem sal, açúcar ou pimenta, o menor traço de pimenta na oferenda a enfurece.

Fuga e fraquezas

Nenhum método de fuga documentado além de respeitar os dias e horários vedados à caça. Índios se protegiam da claridade que ela supostamente temia, andando à noite com tições acesos.