Minhocão

Minhocão

O Que Desmorona a Terra Por Baixo

Não há oferenda que o pare, não há reza que o aplaque.

PRONÚNCIAmi-nho-KÃO

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

Onde toda entidade das águas negocia, o Minhocão só cobra, é a fome da terra que nenhuma oferenda aplaca.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Serpente colossal, cega e sem trégua, que vive dentro da terra e no fundo das águas do Pantanal e do rio São Francisco. Desaba barrancos, engole canoas, devora o que se move nas margens, e não aceita oferenda, pedido ou acordo que a faça parar.

Jonas Trindade, finishes · Zé Carlos, layout · Natália Marques; cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

7 parágrafos · 2 min de leitura

O Negro d'Água pelo menos negocia. O Minhocão, não.

Onde ele passa, o rastro é destruição pura, sem propósito e sem trégua; não há oferenda que o compre, não há reza que o aplaque, não existe versão da lenda em que alguém tenha conseguido barganhar com ele. Enquanto o companheiro de moradia aceita cachaça e fumo em troca de passagem segura, o Minhocão vira embarcações, abre redemoinhos e segue adiante, indiferente a quem estava dentro.

As águas do rio São Francisco são seu domínio principal, dividido com o Negro d'Água, mas o Minhocão tem um hábito que o distingue de qualquer outro monstro aquático do folclore brasileiro: anda pela terra tanto quanto pela água. Na superfície, derruba barrancos inteiros, escava sulcos profundos na lama por onde desliza e, quando o corpo é grande o bastante, chega a desviar o curso de rios só de se arrastar. No subsolo, escava túneis e buracos, alguns tão vastos que já foram confundidos com cavernas naturais. É debaixo da terra que prefere hibernar, longe do barulho.

E o barulho é justamente o que o tira do sono. As festas dos ribeirinhos, com seu forró e sua conversa até tarde perto da margem, o incomodam o bastante para que ele desmorone as ribanceiras próximas ao festejo, jogando os convidados dentro d'água, onde correm o risco real de virar refeição. Em versões mais cruéis do causo, ele nem espera o desabamento: se esgueira até o meio da festa e transforma a noite em algo que ninguém esquece, se sobrevive para contar.

A forma descrita é a de uma cobra gigantesca, mole e escura, sem olhos, com uma boca desproporcional cheia de dentes. Alguns relatos dão a ela nadadeiras; outros, não. Sibila quando está apenas rondando, mas solta um ruído alto e quase ensurdecedor no ataque. Come de tudo: peixe, gado que pasta perto da margem, mulas e cavalos de viajantes que atravessam o rio a vau, e, sempre que a oportunidade aparece, gente.

Câmara Cascudo registrou, em Geografia dos Mitos Brasileiros, um episódio ocorrido numa viagem de canoa pelo São Francisco: um cachorro caiu na água e afundou. O tenente-coronel Francisco Inocência de Miranda Ribeiro, que estava a bordo, mandou um índio da comitiva mergulhar para resgatá-lo. O homem voltou à superfície quase imediatamente, recusando-se a voltar à água; disse que tinha visto o cachorro sendo devorado pelo Minhocão ali mesmo, debaixo da canoa. Ninguém conseguiu convencê-lo do contrário, e ninguém tentou provar que ele estava errado.

Diz-se que o monstro não fica preso ao São Francisco: caminha também pelo centro-oeste e pelo sul do país, e que, quando quer, troca de forma; vira um surubim gigante ou um pássaro branco enorme, de pescoço fino e comprido. Ninguém sabe dizer ao certo quantas dessas histórias são o mesmo bicho contado de formas diferentes, ou bichos diferentes usando o nome dele emprestado.

Aparência física

Corpo de serpente colossal, mole e de cor escura, sem olhos. Boca desproporcionalmente grande, armada de muitos dentes. Relatos divergem sobre a presença de nadadeiras. Nas variantes de metamorfose, assume a forma de um surubim gigante ou de um pássaro branco de pescoço longo e fino.

Comportamento e hábitos

Alterna entre andar sobre a terra, derrubando barrancos e alterando cursos de rios, e escavar túneis sob ela, onde hiberna. Ataca festas ribeirinhas irritado pelo barulho, desmoronando margens ou se infiltrando entre os convidados. Devora qualquer coisa viva ao seu alcance: peixes, gado, animais de carga, pessoas.

Como aplacar

Nenhuma oferenda ou ritual de trégua está documentado. Ao contrário do Negro d'Água, que aceita cachaça e fumo, o Minhocão não negocia.

Fuga e fraquezas

As fontes não registram ponto fraco nem estratégia de fuga eficaz; apenas o hábito de hibernar sob a terra, o que o mantém ausente por longos períodos.