
Minhocão
O Que Desmorona a Terra Por Baixo
Não há oferenda que o pare, não há reza que o aplaque.
PRONÚNCIAmi-nho-KÃO
ORIGEMPortuguês
APURAÇÃOalta
Onde toda entidade das águas negocia, o Minhocão só cobra, é a fome da terra que nenhuma oferenda aplaca.
Serpente colossal, cega e sem trégua, que vive dentro da terra e no fundo das águas do Pantanal e do rio São Francisco. Desaba barrancos, engole canoas, devora o que se move nas margens, e não aceita oferenda, pedido ou acordo que a faça parar.
Jonas Trindade, finishes · Zé Carlos, layout · Natália Marques; cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
7 parágrafos · 2 min de leitura
O Negro d'Água pelo menos negocia. O Minhocão, não.
Onde ele passa, o rastro é destruição pura, sem propósito e sem trégua; não há oferenda que o compre, não há reza que o aplaque, não existe versão da lenda em que alguém tenha conseguido barganhar com ele. Enquanto o companheiro de moradia aceita cachaça e fumo em troca de passagem segura, o Minhocão vira embarcações, abre redemoinhos e segue adiante, indiferente a quem estava dentro.
As águas do rio São Francisco são seu domínio principal, dividido com o Negro d'Água, mas o Minhocão tem um hábito que o distingue de qualquer outro monstro aquático do folclore brasileiro: anda pela terra tanto quanto pela água. Na superfície, derruba barrancos inteiros, escava sulcos profundos na lama por onde desliza e, quando o corpo é grande o bastante, chega a desviar o curso de rios só de se arrastar. No subsolo, escava túneis e buracos, alguns tão vastos que já foram confundidos com cavernas naturais. É debaixo da terra que prefere hibernar, longe do barulho.
E o barulho é justamente o que o tira do sono. As festas dos ribeirinhos, com seu forró e sua conversa até tarde perto da margem, o incomodam o bastante para que ele desmorone as ribanceiras próximas ao festejo, jogando os convidados dentro d'água, onde correm o risco real de virar refeição. Em versões mais cruéis do causo, ele nem espera o desabamento: se esgueira até o meio da festa e transforma a noite em algo que ninguém esquece, se sobrevive para contar.
A forma descrita é a de uma cobra gigantesca, mole e escura, sem olhos, com uma boca desproporcional cheia de dentes. Alguns relatos dão a ela nadadeiras; outros, não. Sibila quando está apenas rondando, mas solta um ruído alto e quase ensurdecedor no ataque. Come de tudo: peixe, gado que pasta perto da margem, mulas e cavalos de viajantes que atravessam o rio a vau, e, sempre que a oportunidade aparece, gente.
Câmara Cascudo registrou, em Geografia dos Mitos Brasileiros, um episódio ocorrido numa viagem de canoa pelo São Francisco: um cachorro caiu na água e afundou. O tenente-coronel Francisco Inocência de Miranda Ribeiro, que estava a bordo, mandou um índio da comitiva mergulhar para resgatá-lo. O homem voltou à superfície quase imediatamente, recusando-se a voltar à água; disse que tinha visto o cachorro sendo devorado pelo Minhocão ali mesmo, debaixo da canoa. Ninguém conseguiu convencê-lo do contrário, e ninguém tentou provar que ele estava errado.
Diz-se que o monstro não fica preso ao São Francisco: caminha também pelo centro-oeste e pelo sul do país, e que, quando quer, troca de forma; vira um surubim gigante ou um pássaro branco enorme, de pescoço fino e comprido. Ninguém sabe dizer ao certo quantas dessas histórias são o mesmo bicho contado de formas diferentes, ou bichos diferentes usando o nome dele emprestado.
Aparência física
Corpo de serpente colossal, mole e de cor escura, sem olhos. Boca desproporcionalmente grande, armada de muitos dentes. Relatos divergem sobre a presença de nadadeiras. Nas variantes de metamorfose, assume a forma de um surubim gigante ou de um pássaro branco de pescoço longo e fino.
Comportamento e hábitos
Alterna entre andar sobre a terra, derrubando barrancos e alterando cursos de rios, e escavar túneis sob ela, onde hiberna. Ataca festas ribeirinhas irritado pelo barulho, desmoronando margens ou se infiltrando entre os convidados. Devora qualquer coisa viva ao seu alcance: peixes, gado, animais de carga, pessoas.
Como aplacar
Nenhuma oferenda ou ritual de trégua está documentado. Ao contrário do Negro d'Água, que aceita cachaça e fumo, o Minhocão não negocia.
Fuga e fraquezas
As fontes não registram ponto fraco nem estratégia de fuga eficaz; apenas o hábito de hibernar sob a terra, o que o mantém ausente por longos períodos.
Notas antropológicas
O Minhocão é o mito da instabilidade geológica e fluvial das margens do São Francisco e do Pantanal traduzido em predador. Barrancos que desabam sem aviso, correntezas que mudam de curso, o chão que cede perto da água, fenômenos reais e recorrentes em regiões de solo encharcado, ganham autoria, e a autoria vira bicho.
Sua recusa em aceitar oferendas o separa da maioria das entidades aquáticas do folclore brasileiro, que costumam operar sob lógica de troca: cachaça por passagem, fumo por sossego. O Minhocão nega esse contrato social, e é precisamente essa recusa que o torna mais aterrador do que o Negro d'Água aos olhos de quem vive à beira do rio, não há como negociar com fome pura.
Contexto histórico
O relato mais citado sobre o Minhocão é o de Alípio de Miranda Ribeiro, publicado na revista Kosmos, número 12, em 1908, descrevendo o testemunho indireto colhido em Corumbá, no atual Mato Grosso do Sul, à beira do rio Paraguai. Câmara Cascudo reproduziu e comentou o episódio em Geografia dos Mitos Brasileiros, consolidando o Minhocão como entidade documentada do folclore pantaneiro e são-franciscano.

Parente elemental
Boiúna
Serpente colossal fluvial de mesma escala destrutiva, ainda que de outra bacia e outra origem mítica

Parente elemental
Cobra Norato
Parte da mesma família de serpentes gigantes que moldam o curso dos rios amazônicos e nordestinos

Companheira
Nego d'Água
Companheiro de moradia nas águas do São Francisco, segundo o próprio artbook; contraste direto entre quem negocia e quem não negocia

Companheira
Romãozinho
Documentado junto ao Minhocão e ao Caboclo-d'Água como uma das entidades que povoam as noites do beiradeiro são-franciscano
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.80
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Lenda_do_MinhocãoCC BY-SA 4.0
- literariaCâmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, citado no artbook e no relato de Alípio de Miranda Ribeiro, revista Kosmos nº12, 1908
