Nego d'Água

Nego d'Água

O Guardião Que Cobra Pedágio em Cachaça

Pague o pedágio em cachaça, ou pague com a canoa.

PRONÚNCIANE-go DÁ-gua

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

O rio cobra de volta de quem pesca sem repartir o que tirou dele.

NO ARCADEPeça 16 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Homem-anfíbio, negro, careca e musculoso, que vigia as águas do São Francisco e cobra seu quinhão de quem pesca em seu território. Quem paga em cachaça e fumo navega em paz; quem nega o tributo perde o anzol, a rede, o barco, e às vezes a própria vida.

Ricardo Jaime; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

6 parágrafos · 3 min de leitura

O Velho Chico tem dono, e ele mora na água.

O rio São Francisco, apelidado assim por quem nasceu à sua margem, é habitado por uma criatura que atende por vários nomes conforme a região: Negro d'Água, Nego d'Água, Negro do Rio, Caboclo-d'Água, Moleque do Rio. O domínio dele se estende também ao Rio Grande, afluente do São Francisco, e ao rio Tocantins, onde recebe visitas semelhantes. Ele protege as águas, as suas, em especial, e colabora com quem pesca ali, desde que a pescaria pague seu preço.

O acordo é simples e não se discute: parte do que se pesca precisa ser entregue a ele. Quem cumpre a regra tem sorte na rede e paz na travessia. Quem não cumpre descobre, rápido, o quanto a vida de pescador pode piorar. Ele espanta os cardumes para longe dos barcos, corta anzóis no meio da fisgada, rasga redes já lançadas. Uma forma consagrada de evitar sua inimizade é a oferenda de cachaça e fumo, jogados na água antes de começar o trabalho; costume que pescadores do Velho Chico mantêm até hoje, ainda que sorrindo e negando quando perguntados diretamente.

Aos que conquistam sua confiança, ele reserva um privilégio raro: leva-os a conhecer os tesouros guardados dentro do seu palácio submerso. Aos que vira inimigos, reserva o oposto. Vira embarcações e canoas com a mesma facilidade com que vira uma pedra n'água, afoga quem cai, ou mata com um abraço mortal, um gesto que, vindo de um corpo daquela força, não deixa margem para luta. Carrancas na proa dos barcos e desenhos assustadores pintados no casco, por fora, são as defesas tradicionais contra sua aproximação. Diz-se ainda que se apaixona por moças de pernas grossas, e que, para tê-las, vira o barco onde elas estão e as arrasta até o fundo do rio, para o mesmo palácio que mostra aos amigos.

Sua origem funde três correntes: os mitos aquáticos indígenas que já povoavam o imaginário do território antes da colonização, os acréscimos trazidos pela cultura negra durante a escravização no vale do São Francisco, e o imaginário das populações ribeirinhas que absorveram as duas heranças em um único ser. É meio humano, meio anfíbio; careca, com crista e orelhas pontudas, corpo inteiramente negro, brilhante e musculoso o bastante para tornar armas de fogo inúteis contra ele. Às vezes aparece gigante, às vezes pequeno. Membranas entre os dedos das mãos e dos pés, que terminam em garras afiadas. Dentes como estalactites. Uma gargalhada estridente e um assobio que gela o sangue de quem ouve sozinho, na beira do rio, ao entardecer, horário em que a maioria dos avistamentos é registrada.

É tão presente no imaginário da região que, em 2003, a cidade de Juazeiro, na Bahia, ergueu-lhe um monumento de doze metros dentro do próprio leito do São Francisco, obra do escultor Ledo Ivo Gomes de Oliveira. A estátua já foi acusada de atrapalhar a navegação e de trazer meses de seca para a região inteira; prova de que, mesmo imóvel e de concreto, o Nego d'Água continua incomodando gente.

Aparência física

Ser meio humano, meio anfíbio. Careca, com crista na cabeça e orelhas pontudas. Corpo inteiramente negro, brilhante e muito musculoso, resistente a armas de fogo. Estatura variável, ora gigante, ora pequena. Membranas entre os dedos das mãos e dos pés, terminados em garras afiadas. Dentes em formato de estalactite. Movimenta-se com grande velocidade tanto dentro quanto fora d'água.

Comportamento e hábitos

Vigia seu trecho do rio e cobra tributo de quem pesca ali. Colabora com quem paga; sabota quem não paga, espantando peixes, cortando linhas e rasgando redes. Vira embarcações de inimigos e afoga ou mata com abraço mortal quem cruza seu caminho de má vontade. Apaixona-se por mulheres de pernas grossas e as sequestra para seu palácio submerso. Mais ativo ao fim da tarde e início da noite.

Como aplacar

Oferendas de cachaça e fumo, jogadas na água antes da pescaria, o acordo clássico dos ribeirinhos do São Francisco. Cumprir a regra de repartir parte do pescado com ele também mantém a relação em paz.

Fuga e fraquezas

Carrancas fixadas na proa dos barcos e figuras assustadoras desenhadas no casco, por fora, mantêm-no afastado. Não há registro de arma eficaz contra ele, armas de fogo são explicitamente descritas como inúteis.