
Boiúna
A Serpente que Dorme sob a Cidade
Sua cabeça descansa na Catedral da Sé. Sua cauda, na Basílica de Nazaré. E ainda não acordou de vez.
PRONÚNCIAbo-i-Ú-na
ORIGEMTupi
NOME DE ORIGEMMbóiuna“mbói (cobra) + una (preta) = cobra preta”
APURAÇÃOmedia
De uma só serpente nascem tanto a proteção quanto a destruição que dividem os rios amazônicos.
Serpente colossal e escura que habita o fundo dos rios amazônicos, capaz de mudar o curso das águas, naufragar embarcações e imitar sua forma para atrair náufragos ao fundo. Raiz mitológica do ciclo de Cobra Norato e Maria Caninana, e presença que, segundo a tradição de Belém, dorme sob a própria cidade.
O CAUSO
6 parágrafos · 2 min de leitura
Debaixo de Belém do Pará, dizem, ainda dorme uma cobra do tamanho de uma cidade.
A cabeça descansa sob o altar da Catedral da Sé. O corpo se estende, quilômetro após quilômetro de subsolo, até a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, onde a cauda finalmente termina, ou talvez nem termine, porque ninguém nunca chegou ao fim dela para confirmar. Enquanto dorme, a cidade fica em pé. No dia em que despertar de vez, engole tudo por cima.
A Boiúna, mbóiuna, cobra preta, em tupi, é a versão mais antiga e mais ampla desse medo: uma serpente colossal, escura, que vive nas profundezas dos rios amazônicos e é capaz de mudar o curso das águas com o simples deslocamento do próprio corpo. Naufraga embarcações virando-as com um golpe de cauda, mas o mais temido não é a força, é o disfarce. Ela pode imitar a forma de um barco inteiro, convincente o bastante para atrair náufragos exaustos, que nadam até o que pensam ser salvação e afundam junto com ela até o fundo do rio. Em algumas tradições, assume até forma de mulher.
A versão mais contada sobre sua origem é também a mais fértil: uma índia se banhava à beira do rio quando a Boiúna a engravidou, e dela nasceram os gêmeos que o folclore amazônico mais celebra; Norato, o filho que virou protetor dos rios, e Maria Caninana, a filha que herdou a fúria da mãe sem herdar nada da bondade do irmão. É por isso que tantos confundem a Boiúna com o próprio Norato: ela não é o filho gentil que desencanta à noite para dançar nas festas ribeirinhas. Ela é a origem de tudo isso, a raiz escura de onde vieram tanto a proteção quanto a violência que dividiram os dois irmãos entre si.
Existe ainda uma versão menos difundida e sem lastro documental sólido, que liga a Boiúna ao Anhangá: contam que ele teria salvado do afogamento uma mulher condenada pela própria tribo por devorar crianças, e que dela teria nascido um filho transformado em serpente para poder viver com os pais no fundo do rio; crescendo, ao longo dos anos, até virar a Cobra Grande que hoje aterroriza os rios amazônicos. É uma origem mais controversa, contada por menos gente, e que a tradição oral trata com desconfiança até entre quem acredita em todo o resto.
O que sobrevive de todas as versões, sem exceção, é o mesmo aviso: em certos dias, moradores de Belém dizem sentir o chão tremer. Alguns explicam pelo tráfego, pela geologia, pela cidade crescendo rápido demais sobre solo mole. Outros preferem lembrar que a corda usada na procissão do Círio de Nazaré é, segundo a tradição mais antiga, uma representação direta da própria Boiúna, o único fio que ainda a mantém adormecida.
Aparência física
Serpente de proporções colossais, de coloração escura quase preta, capaz de se estender por quilômetros. Pode imitar a forma de uma embarcação inteira para enganar náufragos, e em algumas tradições assume também a forma de uma mulher.
Comportamento e hábitos
Muda o curso de rios com o próprio deslocamento, naufraga embarcações e persegue quem sobrevive ao naufrágio. Vive submersa nas profundezas amazônicas, mas a tradição de Belém a descreve também dormindo sob a cidade, cabeça na Catedral da Sé, cauda na Basílica de Nazaré, e capaz de causar tremores e rachaduras no solo com qualquer movimento.
Como aplacar
A tradição mais antiga liga a corda usada na procissão do Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações católicas do país, à própria Boiúna: enquanto a procissão se repete todos os anos, ela permanece adormecida sob a cidade.
Fuga e fraquezas
Nenhuma forma de confronto direto ou fuga está documentada. A Boiúna funciona menos como adversário enfrentável e mais como presença elemental; algo que se evita, não que se vence.
Notas antropológicas
A Boiúna é a explicação mítica para dois fenômenos reais e observáveis na Amazônia: a instabilidade do curso dos grandes rios, que de fato mudam de leito ao longo dos anos por erosão natural, e os tremores e rachaduras que ocasionalmente afetam construções sobre o solo mole da região amazônica. Onde a geologia oferece uma explicação técnica, o mito oferece uma explicação narrativa, e a segunda, no imaginário popular, segue tão viva quanto a primeira.
O caso de Belém é o exemplo mais nítido de sincretismo espacial da mitologia amazônica: a serpente pré-cristã dorme, literalmente, sob os dois templos católicos mais importantes da cidade, a Catedral da Sé e a Basílica de Nazaré, e a corda do Círio, procissão que reúne milhões de fiéis todos os anos, é lida por parte da tradição popular como o próprio corpo da Boiúna contido. A cosmologia indígena não foi apagada pela igreja construída em cima dela; foi incorporada, literalmente, às fundações.
Funcionalmente, a Boiúna também cumpre o papel de mito de origem para outras lendas do ciclo amazônico: é dela, na versão mais difundida, que nascem Cobra Norato e Maria Caninana; o protetor e a destruidora, divididos entre si a partir da mesma fonte. Isso faz da Boiúna menos uma criatura isolada e mais uma raiz genealógica, o ponto em que várias lendas distintas do Norte se revelam ramos de uma só árvore mitológica.
Contexto histórico
A documentação disponível sobre a Boiúna é majoritariamente recente; dicionários de folclore do século XX (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Houaiss) e reportagens contemporâneas sobre a permanência da lenda nas festividades do Círio de Nazaré, em Belém. Ao contrário do Curupira e do Anhangá, não há registro identificado de cronista colonial dos séculos XVI ou XVII tratando especificamente da Boiúna, o que sugere uma consolidação mais tardia do nome e da narrativa tal como são contados hoje.

Variante
Anhangá
Aparece como possível pai em versão alternativa e menos difundida da origem da Boiúna

Parente elemental
Cobra Norato
Filho, na versão mais popular da origem, a Boiúna é a raiz do ciclo mitológico dos gêmeos

Parente elemental
Maria Caninana
Filha, na mesma versão, herdou a fúria da mãe sem herdar a bondade do irmão
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/BoiúnaCC BY-SA 4.0
