Boiúna

Boiúna

A Serpente que Dorme sob a Cidade

Sua cabeça descansa na Catedral da Sé. Sua cauda, na Basílica de Nazaré. E ainda não acordou de vez.

PRONÚNCIAbo-i-Ú-na

ORIGEMTupi

NOME DE ORIGEMMbóiunambói (cobra) + una (preta) = cobra preta

APURAÇÃOmedia

De uma só serpente nascem tanto a proteção quanto a destruição que dividem os rios amazônicos.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Serpente colossal e escura que habita o fundo dos rios amazônicos, capaz de mudar o curso das águas, naufragar embarcações e imitar sua forma para atrair náufragos ao fundo. Raiz mitológica do ciclo de Cobra Norato e Maria Caninana, e presença que, segundo a tradição de Belém, dorme sob a própria cidade.

O CAUSO

6 parágrafos · 2 min de leitura

Debaixo de Belém do Pará, dizem, ainda dorme uma cobra do tamanho de uma cidade.

A cabeça descansa sob o altar da Catedral da Sé. O corpo se estende, quilômetro após quilômetro de subsolo, até a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, onde a cauda finalmente termina, ou talvez nem termine, porque ninguém nunca chegou ao fim dela para confirmar. Enquanto dorme, a cidade fica em pé. No dia em que despertar de vez, engole tudo por cima.

A Boiúna, mbóiuna, cobra preta, em tupi, é a versão mais antiga e mais ampla desse medo: uma serpente colossal, escura, que vive nas profundezas dos rios amazônicos e é capaz de mudar o curso das águas com o simples deslocamento do próprio corpo. Naufraga embarcações virando-as com um golpe de cauda, mas o mais temido não é a força, é o disfarce. Ela pode imitar a forma de um barco inteiro, convincente o bastante para atrair náufragos exaustos, que nadam até o que pensam ser salvação e afundam junto com ela até o fundo do rio. Em algumas tradições, assume até forma de mulher.

A versão mais contada sobre sua origem é também a mais fértil: uma índia se banhava à beira do rio quando a Boiúna a engravidou, e dela nasceram os gêmeos que o folclore amazônico mais celebra; Norato, o filho que virou protetor dos rios, e Maria Caninana, a filha que herdou a fúria da mãe sem herdar nada da bondade do irmão. É por isso que tantos confundem a Boiúna com o próprio Norato: ela não é o filho gentil que desencanta à noite para dançar nas festas ribeirinhas. Ela é a origem de tudo isso, a raiz escura de onde vieram tanto a proteção quanto a violência que dividiram os dois irmãos entre si.

Existe ainda uma versão menos difundida e sem lastro documental sólido, que liga a Boiúna ao Anhangá: contam que ele teria salvado do afogamento uma mulher condenada pela própria tribo por devorar crianças, e que dela teria nascido um filho transformado em serpente para poder viver com os pais no fundo do rio; crescendo, ao longo dos anos, até virar a Cobra Grande que hoje aterroriza os rios amazônicos. É uma origem mais controversa, contada por menos gente, e que a tradição oral trata com desconfiança até entre quem acredita em todo o resto.

O que sobrevive de todas as versões, sem exceção, é o mesmo aviso: em certos dias, moradores de Belém dizem sentir o chão tremer. Alguns explicam pelo tráfego, pela geologia, pela cidade crescendo rápido demais sobre solo mole. Outros preferem lembrar que a corda usada na procissão do Círio de Nazaré é, segundo a tradição mais antiga, uma representação direta da própria Boiúna, o único fio que ainda a mantém adormecida.

Aparência física

Serpente de proporções colossais, de coloração escura quase preta, capaz de se estender por quilômetros. Pode imitar a forma de uma embarcação inteira para enganar náufragos, e em algumas tradições assume também a forma de uma mulher.

Comportamento e hábitos

Muda o curso de rios com o próprio deslocamento, naufraga embarcações e persegue quem sobrevive ao naufrágio. Vive submersa nas profundezas amazônicas, mas a tradição de Belém a descreve também dormindo sob a cidade, cabeça na Catedral da Sé, cauda na Basílica de Nazaré, e capaz de causar tremores e rachaduras no solo com qualquer movimento.

Como aplacar

A tradição mais antiga liga a corda usada na procissão do Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações católicas do país, à própria Boiúna: enquanto a procissão se repete todos os anos, ela permanece adormecida sob a cidade.

Fuga e fraquezas

Nenhuma forma de confronto direto ou fuga está documentada. A Boiúna funciona menos como adversário enfrentável e mais como presença elemental; algo que se evita, não que se vence.