Sepé Tiaraju

Sepé Tiaraju

O Guerreiro Que a Terra Não Esqueceu

"Esta terra tem dono!"

PRONÚNCIAse-PÉ ti-a-ra-JU

ORIGEMGuarani

NOME DE ORIGEMSepé Tyarayu“Sepé” talvez derive do capim-santa-fé (sapé/çape), planta usada na recuperação de terras queimadas, associada a esperança; outra leitura atribui a “Sepé” o sentido de “chefe” ou “sábio”; “Tiaraju” é a adaptação lusófona de Tyarayu, nome de batismo guarani-jesuítico

APURAÇÃOalta

Um guerreiro guarani morto pela colonização virou símbolo de uma identidade que, séculos depois, ainda apaga os povos que ele defendeu.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Sepé Tiaraju existiu: foi chefe guarani dos Sete Povos das Missões, morto em 1756 lutando contra a partilha colonial de seu território pelo Tratado de Madrid. Da resistência histórica nasceu a lenda; seu corpo nunca encontrado, sua alma erguida ao céu, seu culto popular como "São Sepé", protetor do Rio Grande do Sul.

O CAUSO

5 parágrafos · 2 min de leitura

É preciso separar, como se separa em qualquer figura desse tipo, o guerreiro histórico do santo popular, e no caso de Sepé Tiaraju essa separação importa mais do que de costume, porque a fronteira entre um e outro é o próprio campo de batalha onde ele morreu.

A história, documentada por registros de padres jesuítas e por relatos militares espanhóis e portugueses, conta que Sepé nasceu por volta de 1723 numa aldeia devastada por homens brancos, ficou órfão e foi acolhido pelos guaranis dos Sete Povos das Missões, um território que hoje corresponde a parte do Rio Grande do Sul, do norte da Argentina e arredores do Paraguai, organizado pelas missões jesuíticas desde o século XVII. Ali, formou-se como guerreiro e liderança, chegando a ser reconhecido pelos próprios espanhóis como Cacique, Capitão, Alferes Real e Corregedor.

O conflito que definiria sua vida começou longe dele, em gabinetes europeus. Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid: Portugal cederia a Colônia do Sacramento à Espanha em troca do território dos Sete Povos das Missões, terra guarani rica em gado e agricultura, onde viviam entre trinta e cinquenta mil indígenas. A troca implicava desocupar as sete aldeias e deslocar toda essa população para outro território espanhol, sem que ninguém tivesse perguntado a eles. Os guaranis recusaram, e a recusa, apoiada por padres jesuítas como Altamirano e Balda, virou guerra: a Guerra Guaranítica, que se estendeu de 1753 a 1756, opondo indígenas a exércitos conjuntos de Portugal e Espanha.

Sepé Tiaraju liderou a resistência. Em fevereiro de 1756, à frente de um contingente indígena, aguardava tropas espanholas na entrada do povoado de Rio Pardo, atual São Gabriel. Foi ali, diante da chegada inimiga, que teria pronunciado a frase que atravessaria séculos: "Esta terra tem dono!"; quatro palavras que resumem, sem precisar de mais nenhuma, o motivo inteiro da guerra. Os espanhóis atacaram de surpresa. Cerca de mil e quinhentos guaranis morreram naquele confronto, batizado depois de Batalha de Caiboaté. Sepé Tiaraju estava entre os mortos, em 7 de fevereiro de 1756.

É exatamente onde a história termina que a lenda começa. Diz-se que o corpo de Sepé nunca foi encontrado no campo de batalha, e é dessa ausência, desse vazio que nenhum sepultamento preencheu, que nasceu a crença de que ele não morreu como os outros: subiu direto aos céus. A tradição popular do Rio Grande do Sul o transformou, a partir daí, em São Sepé, santo que a Igreja Católica jamais reconheceu oficialmente, mas que o povo gaúcho canonizou por conta própria muito antes de qualquer processo formal. Sua imagem virou símbolo de resistência que atravessou séculos e contextos: citada em marchas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em 2003, celebrada em monumentos, escolas e no próprio Caminho das Missões, rota turística que segue os passos do guerreiro que primeiro disse a essa terra que ela tinha dono, e que esse dono não era quem assinava tratados do outro lado do oceano.

Aparência física

A tradição não fixa um retrato físico detalhado do guerreiro histórico; as representações escultóricas e pictóricas contemporâneas, como a estátua junto ao pórtico de São Miguel das Missões, o retratam como guerreiro guarani de porte firme, em trajes de combate do século XVIII, muitas vezes empunhando lança ou arma de época diante do horizonte aberto do pampa.

Comportamento e hábitos

Como figura histórica, liderou resistência armada e diplomática contra a desocupação das Missões. Como figura de devoção popular, é invocado como protetor da terra e da identidade rio-grandense; sua presença é sentida sobretudo em fevereiro, mês de sua morte, e ao longo do Caminho das Missões.