Negrinho do Pastoreio

Negrinho do Pastoreio

O Afilhado que Nossa Senhora Não Deixou Morrer

"Uma superstição, que tem tanto de absurda quanto de ridícula e exótica", assim descreveu, em 1857, o primeiro homem branco a pôr essa lenda no papel.

PRONÚNCIAne-GRI-nho do pas-to-REI-o

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

A fé devolveu ao menino a dignidade que a escravidão negou.

NO ARCADEPeça 8 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

Menino escravizado, sem nome, torturado e assassinado por perder o gado do estancieiro que o escravizava; salvo por Nossa Senhora, que o recebeu como afilhado por ser madrinha de quem não foi batizado. Hoje é devoção viva no Rio Grande do Sul: quem perde algo acende uma vela perto de um formigueiro e pede a ele, com fé, que ajude a achar.

Daniel HDR, lápis, arte-final · Natália Marques, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

5 parágrafos · 3 min de leitura

Chame-o de Negrinho porque foi assim que ficou, sem outro nome, escravizado numa estância do Rio Grande do Sul sob um senhor rico e cruel, mais odiado ainda pelos vizinhos do que pelos próprios escravizados; coisa rara, numa terra onde a crueldade contra pessoas escravizadas era regra e não exceção. Só uma pessoa gostava dele: o filho do patrão, ainda mais cruel que o pai. O menino, devoto, rezava sempre à Virgem Maria, sua madrinha por direito; a Igreja considerava Nossa Senhora madrinha de todo não-batizado, e ninguém tinha se dado ao trabalho de batizar um escravizado sem nome.

O primeiro castigo nasce de uma aposta. O estancieiro põe o menino para correr contra seu próprio filho, montado no baio, o cavalo mais valioso da propriedade. O Negrinho está ganhando quando o filho do patrão, sem que ninguém veja, assusta o cavalo do próprio pai, sabotagem que custa a corrida e o dinheiro apostado. A resposta do estancieiro não é contra o filho que trapaceou: é contra o menino que nada fez. Manda açoitá-lo e o condena a pastorear todo o gado da fazenda, sozinho, por trinta dias e trinta noites, ao relento, cercado de insetos e do frio da campanha. Ele reza. Um dia, exausto, cochila, e perde o gado inteiro.

Segundo açoite, mais violento que o primeiro, e um prazo impossível: encontrar todos os bois sumidos antes do sol nascer, numa noite sem lua. Ele vai à capela, acende uma vela para a madrinha e outra para clarear o caminho. A cera que escorre forma pontos de luz no escuro, e é seguindo essas luzes que ele encontra, um a um, todos os animais perdidos. Recupera o rebanho inteiro. Cai no sono de exaustão junto ao gado recém-achado, e é nesse instante que o filho do patrão, de novo, solta os bois e corre contar ao pai que o Negrinho os havia perdido outra vez.

O castigo final não deixa dúvida sobre o que essa lenda realmente narra: o estancieiro manda açoitar o menino até a morte, e, para não gastar o fio da enxada cavando uma sepultura, manda jogar o corpo ainda quente sobre um formigueiro. Durante três noites seguidas, o homem tem pesadelos com o gado, com o baio, com o menino que mandou matar. No terceiro dia, vai até o formigueiro esperando encontrar ossos. Encontra o Negrinho de pé, a pele inteira, sem uma marca, e ao lado dele, Nossa Senhora. O estancieiro se ajoelha. O gado perdido reaparece inteiro. O Negrinho monta no baio e sai a galope, vivo entre os vivos e entre os mortos ao mesmo tempo.

Diz-se que, todo ano, por três noites de maio, ele ainda percorre os campos no baio, e é nessa passagem que os cavalos soltos nos pastos disparam sem motivo visível. No resto do tempo, ajuda quem perdeu o que não devia ter perdido: pessoas, bichos, objetos. Acende-se uma vela perto de um formigueiro, pede-se com fé, e ele resolve rápido o que a busca humana não resolveu sozinha.

Aparência física

Menino negro, pequeno, sem sinal de ferimento após a ressurreição; pele lisa, corpo inteiro, tal como foi encontrado junto ao formigueiro. Aparece montado no cavalo baio, o mesmo que disputou na corrida fatal, galopando por campos abertos.

Comportamento e hábitos

Percorre pastagens à noite, sobretudo durante as três noites de maio associadas à sua memória; a passagem é sentida quando cavalos soltos disparam sem razão aparente. Fora dessas noites, atua como intercessor silencioso: quem perde objetos, animais ou pessoas pode contar com a ajuda dele, desde que peça com fé genuína.

Como aplacar

Acender uma vela junto a um formigueiro e pedir, com fé, que ele ajude a encontrar o que se perdeu; eco direto da vela que ele mesmo acendeu na noite em que buscou o gado, e do formigueiro onde foi lançado depois de morto.