Branca Dias (A Senhora do Engenho)

Branca Dias (A Senhora do Engenho)

A Senhora Que a Fé Não Deixou Descansar

"Cristã-nova, natural de Viana e moradora em Lisboa (...) acusada de judaísmo."

PRONÚNCIABRAN-ca DI-as

ORIGEMIbérico

APURAÇÃOalta

A fé que a perseguição tentou apagar permanece viva, vigiando as águas que a esconderam.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Branca Dias existiu. Cristã-nova perseguida pela Inquisição por praticar o judaísmo em segredo, tornou-se senhora de engenho em Pernambuco no século XVI, e, mesmo morta, continuou sendo julgada. Da mulher real nasceu a lenda: o fantasma que afunda a prataria da família num açude para escondê-la da perseguição religiosa, e que ainda hoje assombraria as águas onde jurou nunca mais ser encontrada.

O CAUSO

5 parágrafos · 2 min de leitura

É preciso separar duas histórias antes de contar qualquer uma delas.

A primeira é história, documentada em processo de tribunal: Branca Dias nasceu por volta de 1515, em Viana do Castelo, norte de Portugal, filha de uma família cristã-nova; descendentes de judeus convertidos ao catolicismo à força, no fim do século XV, mas que muitos continuavam, em segredo, dentro de casa, praticando os ritos da fé original. Em 1543, ainda jovem, foi denunciada, presa e processada pelo Santo Ofício em Lisboa, acusada de judaizar. Sentenciada a abjuração pública, dois anos de cárcere e hábito penitencial, conseguiu, por ter filhos pequenos, a dispensa da pena que faltava cumprir. Não foi a única da família a passar por isso: sua mãe e sua irmã Isabel foram processadas no mesmo período.

Décadas depois, já casada com o mercador Diogo Fernandes Santiago, Branca embarcou para o Brasil com sete filhos, reunindo-se ao marido na capitania de Pernambuco. Ali, entre Camaragibe e Olinda, teve mais quatro filhos, ergueu casa-grande, administrou terras e se tornou uma das primeiras senhoras de engenho do Brasil colonial, e, segundo a tradição histórica que a cerca, a primeira mulher portuguesa a manter uma esnoga, uma sinagoga doméstica, em solo brasileiro. Quando a Inquisição finalmente chegou ao Brasil, em fins do século XVI, filhos e netos de Branca foram presos, processados e enviados a Lisboa para autos de fé. Ela mesma morreu por volta de 1589, mas a perseguição não parou na morte: seus ossos foram exumados anos depois, o corpo de uma "herege" era considerado indigno de repousar em terra consagrada, e enviados a Portugal para serem queimados, punição póstuma pensada para destruir até a memória física de quem tinha ousado manter viva uma fé proibida.

É dessa mulher real, perseguida em vida e violada na morte, que nasce a segunda história, a lenda. Na Paraíba e em Pernambuco, conta-se que Branca Dias, sabendo que o Santo Ofício se aproximava e temendo pela prataria da família, peças que, na tradição judaica secreta que ela mantinha, carregavam também valor ritual, afundou tudo nas águas de um açude do engenho, escondendo-as de olhos inquisitoriais que nunca mais as encontrariam. A prataria, dizem, segue lá até hoje. E Branca também: seu espírito assombra as águas do açude, presa entre o mundo que a perseguiu viva e o fundo onde escondeu o último resquício da fé que não pôde professar às claras.

A lenda funde as duas mulheres, a senhora de engenho documentada em processo inquisitorial e a assombração das águas, numa só figura que atravessa gerações de famílias nordestinas que hoje reivindicam descender dela, sem sempre saber dizer com certeza onde termina o parentesco genealógico e onde começa a história que a comunidade decidiu contar sobre a mulher que a Inquisição não deixou em paz nem depois de morta.

Aparência física

A tradição oral não detalha uma aparência fixa; a imagem mais repetida é a de uma figura feminina refletida ou vista à beira das águas do açude, trajada como senhora de engenho do período colonial; vestido escuro e longo, cabelos presos sob um véu. É a imagem que a cultura popular naturalmente projeta sobre a mulher histórica, mais do que um relato de testemunha ocular documentado.

Comportamento e hábitos

Manifesta-se junto às águas do açude associado ao antigo engenho, especialmente à noite. Não interage com quem se aproxima, não persegue, não ataca; a assombração é sobretudo uma presença silenciosa, associada à vigilância eterna sobre a prataria escondida.