Quibungo

Quibungo

A Boca que Mora nas Costas

"O Quibungo ficou baiano. E continuou baiano..."

PRONÚNCIAki-BUN-go

ORIGEMAfro-Bantu

APURAÇÃOmedia

O Quibungo é a lembrança, em forma de monstro, do corpo que a escravidão descartava quando já não sustentava mais o trabalho.

NO ARCADEPeça 64 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Veio da África quase sem mudar de forma. O Quibungo tem cabeça anômala e uma boca vertical cheia de dentes nas próprias costas, que se abre quando ele se curva para engolir crianças teimosas, e ao contrário de quase todo bicho do folclore nacional, pode ser morto por qualquer arma, como qualquer animal.

Felipe Watanabe; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

4 parágrafos · 2 min de leitura

A Bahia é o estado do Quibungo, e só dele. Diferente de tantas figuras do folclore brasileiro que migram, se misturam, ganham nomes novos a cada fronteira estadual, o Quibungo praticamente não se moveu; "ficou baiano", na formulação de Câmara Cascudo, "e continuou baiano". A criatura atravessou o Atlântico com os africanos escravizados quase sem sofrer alteração, o que a torna, entre os mitos deste acervo, um dos poucos quase inteiramente afro-brasileiros, sem a camada de reinterpretação europeia que marca tantos outros. Há um leve eco do "Homem do Surrão" português, mas a raiz é africana: em línguas bantas da região correspondente a Angola e à Zâmbia, "quibungo" significa lobo. É chamado, também, de Lobisomem Africano, Ogro Africano, Negro Velho ou Papão Negro.

O corpo é o que mais o diferencia de qualquer outro devorador de crianças do país: cabeça anômala, e uma boca vertical enorme, cheia de dentes, localizada nas próprias costas, não no rosto. O buraco se abre quando ele se curva para capturar suas vítimas, preferencialmente crianças teimosas e malcriadas, e se fecha assim que ele fica de pé ou termina a refeição. Também se alimenta de filhotes de animais, e mulheres que caminham sozinhas perto de serras e descampados podem virar presa. Diferente da maioria dos bichos do folclore nacional, que se escondem na mata, o Quibungo escolhe viver em campo aberto.

A origem contada é sombria e específica: dizem que foi, um dia, um homem negro muito velho, que já não tinha forças para o trabalho, e se transformou na criatura. A descrição varia de relato para relato, velho maltrapilho, duende, feiticeiro demoníaco, metade macaco e metade homem, "ou tudo isso junto", uma instabilidade que reflete séculos de tradição oral, não falta de precisão.

O que o torna singular entre os monstros deste lote é a mortalidade: o Quibungo pode ser morto por qualquer arma, como qualquer bicho comum, nenhuma imunidade sobrenatural o protege. O relato mais conhecido sobre ele ilustra essa vulnerabilidade de forma brutal. Uma vez, invadiu uma casa para devorar todas as crianças que lá moravam. A mãe o surpreendeu no meio da refeição, e ele a devorou também. Farto ao ponto de mal conseguir se mover, foi encontrado pelo pai e marido, que retornava. Tomado de fúria ao ver a própria família desaparecida, o homem matou o Quibungo impiedosamente a pauladas. A criatura, então indefesa e imóvel pelo próprio excesso, morreu gritando de forma agonizante e histérica.

Aparência física

Criatura grande, de cabeça anômala e disforme. Sua marca mais distintiva é a boca vertical, repleta de dentes, localizada nas costas; abre-se quando o corpo se curva, fecha-se quando ele se ergue. As descrições de origem oral variam: velho negro maltrapilho, duende, feiticeiro demoníaco, ou metade macaco e metade homem.

Comportamento e hábitos

Curva-se sobre suas pequenas vítimas para capturá-las na boca-das-costas, com preferência por crianças teimosas e malcriadas. Também caça filhotes de animais e mulheres que andam sozinhas perto de serras e descampados. Diferente de quase todo bicho do folclore nacional, prefere o campo aberto à floresta.

Como aplacar

Nenhuma oferenda ou trégua é documentada. Ao contrário do Curupira, que aceita fumo e cachaça como pedágio, o Quibungo não admite acordo; é predador total, sem economia de paz possível.

Fuga e fraquezas

Pode ser morto por qualquer arma, assim como qualquer animal comum, é o único devorador de crianças deste lote sem proteção sobrenatural contra a violência física direta.