
Muiraquitã
O Amuleto que Nasce do Barro da Lua
"Amuletos de pedra verde, moldados por mãos que não precisavam de homens para sobreviver, só para uma noite."
PRONÚNCIAmu-i-ra-ki-TÃ
ORIGEMTupi-Guarani
NOME DE ORIGEMybyrakytã“nó da madeira ou nó das árvores; de myrá, árvore/madeira, + kytã, nó”
APURAÇÃOalta
É a prova em pedra de um encontro anual entre dois povos, e de uma sociedade de mulheres que não precisava de homens para sobreviver, só por uma noite.
Sapo, tartaruga ou serpente talhados em pedra verde, o muiraquitã é o amuleto de sorte que as guerreiras icamiabas mergulhavam para buscar no fundo de um lago, uma vez por ano, sob lua cheia. Não é uma criatura: é o objeto em que um encontro anual entre dois povos se transformava em pedra.
O CAUSO
5 parágrafos · 2 min de leitura
Uma vez por ano, quando a lua enchia sobre a Serra da Lua, ao norte do rio Amazonas, um convite corria entre as aldeias vizinhas às terras das icamiabas. Elas eram guerreiras, viviam sem homens em suas tabas, lutavam nuas e manejavam o arco com uma precisão que nenhuma tribo próxima ousava desafiar em campo aberto. O nome mais aceito para elas significa exatamente isso: "mulheres sem marido". Foram os europeus que as batizaram de "amazonas", em referência às guerreiras míticas da Ásia Menor gregas, mas o nome que ficou no maior rio do planeta e no maior estado do Brasil nasceu delas, não de uma lenda grega importada.
O convite levava os homens da tribo vizinha, os guacaris, até a margem de um lago chamado Iaci-Uaruá, o Espelho da Lua. Ali, sob a festa dedicada a Iaci, a própria lua, as icamiabas se relacionavam com os visitantes convidados. Terminada a noite, elas mergulhavam sozinhas nas águas do lago e buscavam, no fundo, um barro de tom esverdeado. Com as próprias mãos, sem pressa, moldavam nele a forma de um sapo, às vezes de uma tartaruga ou de uma serpente, e endureciam a peça até virar pedra. Era essa peça, o muiraquitã, que ofereciam de presente ao guacari com quem haviam passado a noite: amuleto de sorte, prova de que o encontro havia sido real e não sonho.
No ano seguinte, quando os filhos daquela noite nasciam, as icamiabas ficavam apenas com as meninas. Os meninos eram entregues aos pais, para crescerem nas aldeias vizinhas, longe das tabas onde só havia mulheres.
O amuleto sobreviveu ao povo que talvez o tenha criado. Séculos depois, exploradores espanhóis liderados por Francisco de Orellana, descendo o rio pela primeira vez em 1542, relataram confrontos com guerreiras que combatiam como as icamiabas eram descritas, e foi por causa delas que o rio, até então chamado Mar Dulce, ganhou o nome que carrega até hoje: Amazonas. Viajantes posteriores, como La Condamine em 1735 e os naturalistas Spix e Martius já no século XIX, documentaram amuletos de pedra verde em forma de batráquio circulando entre os povos da região, chamando-os de "pedras divinas". Um último relato, de 1967, fala de um indígena que teria sido mantido por uma semana como prisioneiro de uma aldeia de mulheres guerreiras, obrigado a participar das festividades dedicadas à lua.
Existiram de fato as icamiabas, ou nasceram inteiras da imaginação de cronistas que precisavam explicar guerreiras que não deveriam existir segundo o mundo que eles conheciam? A pergunta segue aberta. O que resta, sólido e datável, é a pedra: o muiraquitã ainda aparece em sítios arqueológicos do Baixo Amazonas, prova de que, lenda ou não, alguém talhou aquele sapo de pedra verde e o considerou valioso o bastante para atravessar gerações.
Aparência física
Pequeno artefato talhado em pedra verde, historicamente identificada como jade ou amazonita, em formato de sapo na maioria dos exemplares conhecidos, mas também encontrado em forma de tartaruga ou serpente. Usado pendurado ao pescoço ou preso ao corpo como amuleto.
Comportamento e hábitos
Não se aplica no sentido de uma criatura com vontade própria: o muiraquitã é objeto, não agente. O "comportamento" que a lenda registra é o do ritual que o produz; a festa anual à beira do lago, o mergulho das icamiabas em busca do barro verde, a modelagem manual da peça e sua entrega como presente.
Como aplacar
Não se aplica: o muiraquitã não ameaça ninguém. Pelo contrário, é ele quem protege, a lenda o descreve como amuleto que traz sorte a quem o recebe e o carrega.
Fuga e fraquezas
Não se aplica; o muiraquitã não é uma entidade hostil.
Notas antropológicas
O muiraquitã condensa, num objeto pequeno o bastante para caber na palma da mão, uma das poucas lendas brasileiras com lastro histórico documentado por cronistas europeus contemporâneos ao próprio encontro. O relato de Frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Orellana em 1542, descreve mulheres guerreiras reais o suficiente para renomear o maior rio do planeta, o que separa esse mito de boa parte do resto do acervo é justamente essa ponte com o registro documental, ainda que os detalhes rituais (a festa, o mergulho, a entrega do amuleto) só apareçam consolidados em fontes posteriores.
A lenda também descreve, com uma naturalidade que soa radical mesmo hoje, uma estrutura social organizada inteiramente ao redor da autonomia feminina: mulheres que escolhem quando e com quem se relacionar, que mantêm apenas as filhas e devolvem os filhos aos pais, que não dependem de homem algum para caçar, guerrear ou sustentar a própria aldeia. Não é uma utopia sem custo, a separação dos filhos ao nascer, por exemplo, tem uma dureza que a narrativa não amacia, mas é uma inversão deliberada do modelo de família patriarcal que os próprios cronistas europeus levavam consigo, e é significativo que tenha sido justamente essa inversão a marcar, com seu nome, a geografia do continente.
Por fim, o muiraquitã amplia a lenda das icamiabas para além da narrativa oral: ele é também achado arqueológico, testemunho físico dos povos Tapajós e Konduri que habitaram o Baixo Amazonas antes da chegada europeia. A lenda explica o objeto; o objeto, por sua vez, ancora a lenda numa cultura material real, ainda que os dois nunca se encontrem por completo.
Contexto histórico
O primeiro relato indireto vem de Frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Francisco de Orellana, que desceu o rio Amazonas entre 1540 e 1542 e descreveu confrontos com mulheres guerreiras sem maridos, batizadas pelos espanhóis de "Amazonas" e chamadas pelos indígenas de Icamiabas. Em 1735, o naturalista francês La Condamine registrou amuletos batraquianos em pedra verde semelhante a jade circulando na região. Entre 1817 e 1820, os naturalistas alemães Spix e Martius documentaram peças equivalentes, chamando-as de "pedras divinas". A origem geológica do material usado, se local ou de comércio distante, permanece em debate desde o século XVIII.
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Muiraquit%C3%A3CC BY-SA 4.0

