As Amazonas (Icamiabas)

As Amazonas (Icamiabas)

As Guerreiras que Batizaram o Maior Rio do Planeta

Vieram do Rio Grande, viraram lenda grega, e deixaram o nome gravado no maior rio do mundo.

PRONÚNCIAi-ca-mi-Á-bas

ORIGEMTupi-Guarani

NOME DE ORIGEMIcamiaba“peito partido”; de i + kama (peito) + îaba; tradução alternativa, mais difundida, é “mulheres sem marido”

APURAÇÃOmedia

Um povo que a colonização não conseguiu nomear ganhou, ainda assim, um nome gravado no maior rio do mundo.

NO ARCADEPeça 64 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Ágeis, fortes e organizadas sem homem algum em suas tabas, as icamiabas resistiram aos primeiros exploradores espanhóis que desceram o rio Amazonas em 1542. A ferocidade da resistência foi contada de volta à Espanha, e o rei Carlos I, lembrando das guerreiras da mitologia grega, batizou o rio com o nome que carrega até hoje.

ARTBOOK

Eber Ferreira, finishes · Eddy Barrows, layout · Natália Marques; cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

5 parágrafos · 3 min de leitura

Muito antes de qualquer europeu pisar na foz do maior rio do planeta, os povos indígenas espalhados por toda a bacia amazônica já contavam a mesma história, em línguas diferentes e sem contato direto entre si: existia, floresta adentro, uma nação inteira de mulheres que vivia sem marido. O nome mais aceito para elas, icamiabas, significa exatamente isso.

O primeiro confronto documentado aconteceu em 1542. Francisco de Orellana descia o rio vindo dos Andes, atrás de ouro, quando sua tropa foi avisada da existência dessas mulheres antes mesmo de encontrá-las, o que já diz algo sobre o quanto a fama delas corria à frente de qualquer expedição europeia. Perto da atual Nhamundá, na região que ficaria conhecida como Espelho da Lua, os espanhóis enfrentaram mulheres altas, que lutavam nuas, armadas apenas de arco e flecha, ao lado de guerreiros aliados. O relato de Frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição, chegou à corte espanhola carregado de espanto, e o rei Carlos I, lembrando da mitologia grega das guerreiras da Ásia Menor, batizou o rio, até então chamado Mar Dulce ou Rio Grande, de Rio das Amazonas. É digno de nota que nem Orellana nem Carvajal jamais tenham usado a palavra "icamiaba": o nome "Amazonas" nasceu inteiro na Europa, sobreposto a um povo que já tinha, havia gerações, um nome próprio.

Quase um século depois, em 1641, o padre jesuíta Cristóbal de Acuña, integrante da expedição de Pedro Teixeira, compilou o relato mais sistemático sobre elas; sem jamais tê-las visto, apenas ouvindo de indígenas ao longo de todo o curso do rio. Segundo Acuña, viviam numa região montanhosa chamada Yacamiaba, sem companhia masculina permanente, exímias arqueiras, e recebiam homens guacarás em certas épocas do ano só para procriar. As meninas ficavam; quanto aos meninos, um indígena contou a Acuña que eram devolvidos aos pais no ano seguinte, mas a maioria dos outros relatos que ele ouviu garantia algo mais duro: que os meninos eram mortos. Acuña, cauteloso, julgou essa segunda versão a mais provável.

O que mais impressiona, revendo o conjunto de fontes, é a dispersão geográfica e étnica do mesmo mito. Yves d'Évreux ouviu falar delas entre os tupinambás do Maranhão em 1612. Os apapocuvas guaranis, no atual Mato Grosso do Sul, ainda hoje contam lendas de mulheres que vivem sem maridos. Os omáguas do Amazonas contaram ao conquistador alemão Philipp von Hutten, no século XVI, de mulheres "que não tinham nenhuma comunhão com os homens, exceto algumas vezes por ano". Povos que nunca tiveram contato entre si, falando línguas distintas, descreveram de forma convergente a mesma estrutura social, o que torna difícil descartar a lenda como pura invenção europeia, mesmo que o nome "Amazonas" seja, sem dúvida, um empréstimo grego aplicado de fora.

O último relato registrado é de 1967: um indígena contou ter sido mantido prisioneiro por uma semana numa aldeia de mulheres, obrigado a participar das festividades dedicadas à lua. Se existiram exatamente como a lenda descreve, ou se são a reformulação indígena de uma estrutura social real que a imaginação europeia moldou à sua própria mitologia, ninguém consegue provar. O que sobrevive, sólido e datável, não é a resposta, é o nome. Gravado no maior rio do mundo e no maior estado do Brasil, ele carrega a memória dessas mulheres havia quase cinco séculos, quisessem os cronistas creditá-las ou não.

Aparência física

Mulheres altas, ágeis e de força incomum, que lutavam nuas e portavam apenas arco e flecha; descrição que se repete, com pequenas variações, em praticamente todas as fontes coloniais. Orellana as descreve ainda habitando casas de pedra e acumulando metais preciosos; o artbook as situa em tabas de palha nas margens dos rios amazônicos, mais próximas da vida material das demais tribos da região.

Comportamento e hábitos

Vivem organizadas sem a presença masculina permanente, mantendo os homens afastados de suas tabas na maior parte do ano. Uma vez por ano, na noite de lua cheia da Festa de Iaci, recebem os homens da tribo vizinha guacari à margem do lago Iaci-Uaruá para fins de procriação. Ficam apenas com as filhas nascidas dessas relações; segundo a maioria dos relatos coloniais, os filhos homens não sobrevivem para chegar à idade adulta na taba materna. Combatem com habilidade quando confrontadas, a resistência ao avanço espanhol em 1542 é o episódio mais bem documentado.

Como aplacar

Não se aplica no sentido de apaziguar uma ameaça: as icamiabas não são entidade hostil por natureza, mas sociedade organizada que reage à invasão do próprio território com a força de qualquer povo guerreiro. O convite anual à Festa de Iaci é, ele mesmo, o único "acordo" documentado, uma trégua e um encontro negociados, não uma oferenda de medo.

Fuga e fraquezas

Nenhuma fraqueza documentada. O único registro de confronto direto, a resistência ao avanço de Orellana em 1542, mostra guerreiras competentes e determinadas, não uma ameaça vulnerável a estratagema conhecido.