Mãe-do-Ouro

Mãe-do-Ouro

A Luz Que Aponta o Ouro e a Ruína

Segredo absoluto, ou a mina desaba sobre todos.

PRONÚNCIAmãe-do-OU-ro

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

A ganância que a corrida do ouro premiava sem limites encontra, nela, a única lei que a pune de verdade.

NO ARCADEPeça 16 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Bola de fogo que risca o céu sobre o Centro-Oeste e para exatamente onde a terra esconde um veio de ouro. Ajuda quem precisa e trai quem cobiça: ao garimpeiro ganancioso, mostra caminho falso; ao homem que a persegue por luxúria ou riqueza, oferece o fundo de um rio.

Alisson Borges; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

6 parágrafos · 2 min de leitura

Quem vê uma luz cruzando o céu do sertão numa noite sem lua tem duas explicações à escolha. Estrela cadente é a resposta de quem nunca ficou pobre por confiar na primeira. A segunda resposta, a que os garimpeiros do ciclo do ouro aprenderam a temer e a desejar ao mesmo tempo, tem nome: Mãe-do-Ouro.

Ela cruza os céus como uma bola de fogo e para exatamente onde a terra esconde riqueza. Onde toca o chão e derrama seu pó dourado, ali está o veio; basta cavar, basta entrar, e o ouro em quantidade generosa espera por quem teve a sorte de ser guiado. Mas a dádiva vem com uma cláusula que não se negocia: segredo absoluto. Revelar a localização da mina a qualquer pessoa é assinar a sentença de todos os envolvidos, inclusive de quem falou. Furiosa, ela faz a terra desabar sobre a jazida inteira, sepultando ouro e gente na mesma cova.

O inverso também é lei sua. Quando percebe que uma alma de má índole está prestes a encontrar um depósito precioso, ela intervém; não com violência direta, mas com engano. Faz a pessoa seguir uma pista falsa, uma trilha que não leva a lugar nenhum. Ou, mais perigoso ainda, assume a forma de uma bela mulher e atrai o cobiçoso para bem longe, às vezes até o fundo de um rio, onde a promessa de riqueza e a certeza da morte chegam juntas, na mesma braçada de água.

Ela também é xerife de outra causa, menos falada mas igualmente firme: protege mulheres maltratadas ou abandonadas pelos próprios maridos. Para esses homens, reserva o mesmo destino dos gananciosos; atraídos para dentro de um rio, ou simplesmente perdidos para sempre, sem jamais reencontrar o caminho de casa. Nunca se soube ao certo se ela pune por justiça ou se apenas devolve, em espécie, o abandono que presenciou.

A lenda nasceu no fim do século XVII e cresceu junto com o próprio ciclo do ouro no século XVIII, quando Minas Gerais virou o centro nervoso da extração mineral do território. Ali ela ganhou corpo de serpente dourada, que se desfaz em estrela cadente antes de desaparecer de vez. No Paraná, perdeu a cabeça, literalmente: quem zela pelas jazidas por lá é uma mulher sem cabeça. A raiz mais antiga, dizem, está entre os guaranis do Rio Grande do Sul, terra onde o Boitatá também é forte, e de onde a Mãe-do-Ouro parece ter herdado parte de sua natureza ígnea antes de se espalhar pelo resto do Brasil.

Acredita-se que ainda restam muitas minas por descobrir, e que continuam intocadas exatamente porque ela as protege dos gananciosos, uma a uma, há mais de trezentos anos.

Aparência física

Na forma mais comum, é pura luz: uma bola de fogo que risca o céu noturno, indistinguível à primeira vista de uma estrela cadente ou de um fenômeno atmosférico qualquer; só a trajetória, parando exatamente sobre uma jazida, denuncia sua natureza. Quando escolhe forma humana, é uma mulher de beleza desconcertante, luminosa o bastante para ofuscar quem a persegue por engano ou por desejo.

Na variante de Minas Gerais, é uma serpente inteiramente dourada, que se desfaz em estrela cadente para desaparecer. No Paraná, perde a cabeça e assume o corpo decapitado que ainda assim consegue vigiar as jazidas da região.

Comportamento e hábitos

Patrulha o território à noite, especialmente em noites sem lua, quando o brilho da própria luz é mais visível. Reage ao caráter de quem se aproxima de uma jazida: recompensa a sorte de quem topa com o ouro por acaso, e engana ativamente quem cobiça e busca. Intervém também na vida doméstica das mulheres do garimpo, retirando de cena maridos violentos ou negligentes.

Como aplacar

As fontes não registram oferenda ou ritual de trégua. O silêncio absoluto sobre a localização de qualquer jazida revelada por ela é, em si, a única forma conhecida de manter sua boa vontade, quebrar esse silêncio é o único gatilho documentado de sua fúria.

Fuga e fraquezas

Não há registro de confronto direto nem de forma de escapar de seu engano depois que ele já começou: quem segue a pista falsa ou a mulher luminosa raramente percebe o erro a tempo de voltar.