
Labatut
O General Que Virou Bicho-Papão
Ele morreu na Bahia em 1849. Ao menos um dos monstros, garantem, está mesmo morto.
PRONÚNCIAla-ba-TUT
ORIGEMPortuguês (nome próprio francês aportuguesado)
APURAÇÃOalta
O monstro do sertão guarda a memória de uma crueldade real que os livros de história preferem suavizar.
Forte, veloz e silencioso, raro entre os monstros do folclore brasileiro, o Labatut caça crianças barulhentas nas noites de vento na fronteira entre Ceará e Rio Grande do Norte. A criatura nasceu da memória real de um general mercenário francês tão cruel em vida que sua lembrança bastou para virar bicho de assombrar geração após geração.
Geraldo Borges; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
4 parágrafos · 2 min de leitura
Antes de ser monstro, Labatut foi general. Pierre Labatut, batizado Pedro depois de naturalizado brasileiro, era veterano das Guerras Napoleônicas, exilado da Europa depois da queda de Napoleão, que atravessou o Atlântico em 1812 para virar mercenário nas guerras de independência da América Latina. Serviu ao lado de Simón Bolívar na Colômbia, sem nunca se entender bem com ele, e ganhou o apelido de Pirata do Caribe antes mesmo de pisar em solo brasileiro. Chegou ao Rio de Janeiro em 1822, a convite do próprio Dom Pedro, para organizar o Exército Pacificador que expulsaria os portugueses da Bahia. Venceu a decisiva Batalha de Pirajá naquele mesmo ano, mas a vitória veio acompanhada de métodos que marcariam sua memória para sempre: dezenas de negros aquilombados fuzilados sob suas ordens, castigos físicos duríssimos contra os próprios soldados, e um temperamento tão insubordinado que seus próprios aliados o depuseram e prenderam em 1823.
Dez anos depois, em 1832, a Regência o convocou de novo, agora para o Ceará, com a missão de conter a Insurreição de Crato liderada por Joaquim Pinto Madeira. Ali, no Cariri cearense, sua fama de crueldade já corria à frente dele; soldados e populares que o conheceram levavam para casa relatos cada vez mais grotescos sobre suas imperfeições físicas e seus defeitos morais, contados aos filhos e às esposas em voz baixa, à noite. Cada repetição acrescentava um detalhe, tirava outro, até que o general de carne e osso começou a se confundir com uma criatura à parte.
O monstro que sobrou dessa fusão herdou um olho só, presas salientes na boca, pés redondos e um pelo cobrindo o corpo inteiro, pontudo e perigoso como o de um porco-espinho; somado a tudo o que já se contava do General: força descomunal, mãos e pés enormes, crueldade sem limite. Sua fome nunca se satisfaz, e ele sai todas as noites à caça de humanos, com clara preferência por carne de criança; as que fazem mais barulho à noite, essas ele acha mais macias e saborosas que qualquer adulto. Tem audição privilegiada e usa isso a seu favor: para junto às portas das casas, ouvindo quem canta, assobia ou ronca alto demais, até escolher a vítima mais fácil da noite. É rápido e silencioso, qualidades raras entre os monstros do lendário brasileiro, mas cães sempre o notam primeiro, e um latido no meio da madrugada, no sertão, pode ser o único aviso antes que ele chegue.
Dizem que ainda vive no fim do mundo; nas elevações da Chapada do Apodi, exatamente onde os territórios cearense e potiguar se tocam, a mesma região da revolta que consolidou sua lenda. O General Pedro Labatut morreu de verdade em 1849, na Bahia, onde está enterrado sob um panteão erguido em sua homenagem em Pirajá. É um consolo estranho e específico: pelo menos um dos monstros do Brasil, garantem, já está devidamente morto.
Aparência física
Um só olho na testa, presas salientes que lembram as de um elefante, pés redondos, mãos e pés enormes. Corpo inteiramente coberto de pelos longos, pontudos e perigosos como espinhos de porco-espinho. Cabelos longos e desgrenhados. Estatura alta e físico corpulento, herança direta da descrição física real do General.
Comportamento e hábitos
Caça sozinho, toda noite, com preferência por vento forte ou lua cheia. Encosta nas portas das casas para ouvir quem está acordado, cantando, assobiando ou roncando alto, sinal de presa fácil. Prefere crianças barulhentas, que considera mais saborosas. Apesar do porte, é rápido e silencioso, característica incomum entre os monstros do folclore nacional, sua presença costuma ser denunciada pelos cães da vizinhança antes que ele próprio se revele.
Como aplacar
Nenhuma oferenda, acordo ou ritual de trégua foi registrado nas fontes consultadas. Diferente de entidades como o Curupira, o Labatut não negocia; é fome pura, sem regra moral por trás.
Fuga e fraquezas
Cães o denunciam antes que ele se aproxime: quando latem sem motivo aparente na calada da noite, é sinal de que o Labatut pode estar por perto. Silêncio é a defesa mais citada; crianças que não cantam, assobiam ou roncam alto atraem menos sua atenção.
Notas antropológicas
O Labatut é um caso raro e bem documentado de pessoa histórica real transformada em bicho-papão dentro de uma única geração; o processo de mitificação aconteceu rápido o bastante para deixar rastro em registro escrito, o que normalmente não acontece com entidades de origem colonial mais antiga. A crueldade documentada do General; o fuzilamento de dezenas de escravizados, os castigos físicos contra os próprios soldados, o autoritarismo que o levou à prisão pelos próprios aliados; não precisou de exagero para virar terror: precisou apenas de repetição boca a boca, cada relato acrescentando um detalhe físico monstruoso ao que já era, de fato, um comportamento monstruoso.
A função social do mito é dupla. Serve, como tantos bichos-papões regionais, para disciplinar crianças através do medo do que ronda a noite, mas também preserva, de forma deslocada e fantástica, a memória de uma violência histórica real que o registro oficial tende a suavizar em nome do herói da Independência. O Labatut oficial dos livros escolares organizou tropas e venceu batalhas decisivas; o Labatut do sertão nordestino é o mesmo homem visto pelos que sofreram sob seu comando, sem o verniz patriótico, e é essa versão, não a heroica, que sobreviveu no imaginário popular da Chapada do Apodi.
Contexto histórico
Pierre Labatut, naturalizado Pedro Labatut, nasceu em Cannes em 1776 e morreu em Salvador em 1849. Veterano das Guerras Napoleônicas, chegou ao Brasil em 1822 a convite de Dom Pedro I, liderou o Exército Pacificador na Independência da Bahia e venceu a Batalha de Pirajá. Depois de deposto pelos próprios aliados em 1823, foi convocado novamente em 1832 para conter a Insurreição de Crato, no Ceará, episódio em que sua fama de crueldade se consolidou e a associação com o monstro do folclore sertanejo começou a tomar forma. A Wikipédia PT mantém verbetes próprios tanto para o general histórico quanto para o "Monstro Labatut" como entidade folclórica distinta, documentando a fusão entre pessoa real e criatura lendária.
“"mesmo presos e amarrados, insultavam os nossos com o nome de 'caibras' [...] eu os mandei fuzilar"”

Rival
Besta Fera
Outra criatura do sertão que espalha caos e terror em noites específicas do calendário

Parente elemental
Bicho-Papão
Arquétipo genérico do predador noturno de crianças do qual o Labatut é uma variante regional e historicamente ancorada

Variante
Papa-Figo
Outro bicho-papão nordestino que caça crianças à noite, com origem em figura humana em vez de sobrenatural
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.66
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Monstro_LabatutCC BY-SA 4.0
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_LabatutCC BY-SA 4.0
