Jurupari

Jurupari

O Legislador que os Padres Rebatizaram de Diabo

"O deus-máximo, o deus popular, a maior tradição sócio-guerreira do Brasil colonial."

PRONÚNCIAju-ru-pa-RI

ORIGEMTupi Antigo

NOME DE ORIGEMÎurupari“boca torta”; de îuru (boca) + apar (torta), segundo o tupinólogo Eduardo Navarro; outras leituras: “tirou-me a palavra da boca” (jurupoari, registrado por Couto de Magalhães) e “o que vem à nossa rede”, onde dormimos

APURAÇÃOalta

O mesmo mito que impôs domínio sobre as mulheres virou, séculos depois, o rosto do demônio que os padres precisavam inventar.

NO ARCADEPeça 256 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Filho do Sol com uma virgem, legislador que tirou das mulheres o poder que antes era só delas e o entregou aos homens, dono de flautas sagradas que nenhuma mulher pode ver sob pena de morte: nada nisso é obra do Diabo. Jurupari virou demônio porque os jesuítas precisavam de um.

Márcio Hum; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

6 parágrafos · 3 min de leitura

Antes de qualquer padre desembarcar no Brasil, Jurupari já era, segundo Câmara Cascudo, "o deus-máximo, o deus popular, a maior tradição sócio-guerreira" entre os tupis. É preciso partir daí, porque tudo que veio depois, o nome vira sinônimo de demônio em qualquer dicionário, foi decisão de outra gente, tomada séculos depois de o mito já existir sozinho.

A história começa com Ceuci, moça que descansava sob uma árvore quando a fome venceu a prudência: comeu o fruto do mapati, proibido às mulheres em dias de fertilidade. O sumo escorreu pelo corpo e a engravidou sem contato de homem algum, concepção que o próprio registro etnográfico compara à da Virgem Maria. A aldeia não perdoou: o conselho de anciãos a exilou, e foi no exílio que nasceu Jurupari. Com sete dias de vida já aparentava dez anos; mais radiante que o Sol, mais sábio que qualquer ancião, ele era, na verdade, o próprio enviado do Sol, seu pai, incumbido de uma missão que a lenda diz que ele cumpre até hoje sem sucesso: encontrar, entre todas as mulheres do mundo, uma companheira paciente, discreta e sem curiosidade para o Sol.

Mas a missão que de fato o define não é essa busca. É a reforma. Jurupari chegou à aldeia e retirou das mulheres o poder que, até então, era exclusivamente delas, e o entregou aos homens. Criou as leis, as festas, os rituais que dezenas de povos do Uaupés e do Rio Negro seguem até hoje: instituiu a iniciação masculina, as flautas sagradas cuja voz o representa depois de morto, e a regra mais dura de todas, nenhuma mulher pode ver ou ouvir o ritual. Quem for flagrada morre, por veneno ou afogamento. Nem a própria mãe escapou: Ceuci morreu em decorrência dessa lei que o próprio filho impôs.

Quando os portugueses chegaram, encontraram um sistema religioso complexo demais para ser respeitado e simples demais, aos olhos deles, para não ser encaixado numa gaveta já conhecida. Os jesuítas fizeram o que já tinham feito na África e na Ásia: elevaram Tupã, até então apenas o dono do trovão, ao posto de Deus único, e coube a Jurupari, entidade de festa, dança e segredo ritual, a quem não se rezava nem se ofertava nada, herdar o papel do Diabo. O dualismo Deus-contra-Diabo, estranho à cosmologia tupi original, nasceu dessa tradução forçada.

O nome "Jurupari", inclusive, nunca foi dos próprios povos do Rio Negro: missionários e cronistas o importaram do litoral tupi e o impuseram sobre heróis legisladores que tucanos, aruaques e macus já chamavam por outros nomes; Izí, Kuwai, Guramũye. Apagar o nome original era, também, apagar o povo que o carregava.

Fora da disputa de tradução, resta a face mais antiga do mito: Jurupari como Senhor dos Pesadelos, dono das epidemias, das feras devoradoras, de tudo que a floresta esconde de ruim. Aparece aos pajés como coruja ou morcego, guarda sepulturas afugentando os vivos com gritos, e é dele a autoria de todo pesadelo do qual ninguém consegue acordar gritando. Mesmo perseguido havia séculos, o culto às flautas sagradas segue vivo entre os povos do Alto Rio Negro; não é lenda morta, é rito que continua soando.

Aparência física

Não tem forma única. É descrito ora como caboclo medonho, sempre rindo, com a boca torta que dá nome à entidade; ora como cobra com braços; ora como homem de grande beleza, sabedoria e poderes divinos. Há ainda a versão do bebê invisível; presença que a própria mãe sentia mamar, sem jamais poder vê-lo. Em alguns mitos morre queimado, e das cinzas nasce a palmeira de paxiúba, cuja madeira vira as flautas sagradas, os "juruparis", que carregam sua voz depois da morte.

Comportamento e hábitos

Comunica-se com os pajés assumindo forma de coruja ou de morcego (andirá), criaturas noturnas. Guarda sepulturas e afugenta os vivos com gritos e aparições. Provoca pesadelos, asfixia durante o sono e paralisia do sono em quem desrespeita as leis da natureza ou da própria sociedade. Preside o ritual de iniciação masculina, flagelações, uso de tabaco, coca e substâncias como o yagé, revelado apenas aos homens que passam pelas provações.

Como aplacar

Não há oferenda que compre trégua com Jurupari, ele não é entidade a quem se reza ou se presenteia. O único caminho é o próprio ritual de iniciação: submeter-se às provações e manter o segredo. Para as mulheres não existe caminho algum; a regra é absoluta, sem exceção e sem negociação possível.

Fuga e fraquezas

Nenhuma fraqueza documentada. A única "defesa" registrada nas fontes é preventiva e vale só para os homens: passar pelas provações da iniciação sem falhar. Para qualquer mulher que veja ou ouça o ritual, as fontes não registram fuga possível, apenas a pena capital.