Ipupiara

Ipupiara

O Terror Mais Antigo das Águas Brasileiras

"Há também nos rios outros fantasmas, a que chamam Igpupiára... que matam do mesmo aos Índios."

PRONÚNCIAi-pu-pi-A-ra

ORIGEMTupi Antigo

NOME DE ORIGEM‘Ypupîara“o que mora dentro d'água”; de ‘y (água) + pupé (dentro) + yûara (procedência, moradia); grafias coloniais incluem Igpupiára, Upupiara e Ypypiapra

APURAÇÃOalta

O monstro dá nome e explicação sobrenatural ao horror que o mar devolve sem testemunha.

NO ARCADEPeça 64 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Homem-marinho de quase três metros, coberto de pelos negros, focinho de grandes bigodes: o Ipupiara aterroriza pescadores, mariscadoras e lavadeiras da costa brasileira desde os primeiros registros da colônia. Não seduz, não negocia, não poupa. Mata por afogamento e come apenas os olhos, o nariz, os dedos e as genitálias de quem pega.

Adriano Augusto, cores · Paulo Siqueira, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

4 parágrafos · 3 min de leitura

"Monstro marinho" era o termo que Frei Vicente do Salvador considerava mais justo, no início do século XVII, para o que os indígenas do litoral chamavam de Ipupiara; mais fiel, dizia ele, do que "homem marinho" ou "homens marinhos", já que ninguém sabia dizer ao certo se era um só ou muitos. O frade não foi o primeiro a documentá-lo: o próprio padre José de Anchieta, já em 1560, escrevia sobre "outros fantasmas" nos rios, a que chamavam Igpupiára, moradores das águas que matavam os índios antes mesmo de os cristãos chegarem à região.

O episódio mais detalhado aconteceu em São Vicente, em 1564, e chegou até hoje pela pena de Pero de Magalhães Gândavo, em sua História da Província Santa Cruz. Uma índia caminhava à beira da praia, de noite, quando todos já dormiam, e avistou uma criatura de quase três metros, coberta de pelos negros, com focinho de bigodes enormes. Correu para acordar Baltasar Ferreira, filho do capitão da capitania. Ele não acreditou, mandou-a voltar e confirmar o que tinha visto. Ela voltou, e descreveu o bicho como feio a ponto de parecer coisa do Diabo. Baltasar levantou-se, pegou a espada e foi até a praia. Encontrou o monstro erguido sobre o próprio rabo de peixe, como quem se prepara para o combate. Golpeou primeiro, e o sangue correu. O Ipupiara, ferido, soltou urros que ninguém ali reconheceu como coisa deste mundo e tentou revidar sem sucesso, até que Baltasar acertou-lhe a cabeça com uma estocada final. Escravizados que tinham ouvido os gritos da índia chegaram a tempo de ajudar a terminar o combate. Baltasar quase desmaiou de exaustão. Voltou para casa incapaz de responder ao próprio pai sobre o que tinha acontecido. O corpo do bicho ficou exposto em praça pública durante dias; os índios locais o chamavam de Ipupiara, "demônio das águas".

Outros cronistas confirmaram o mesmo terror em pontos diferentes do litoral. Fernão Cardim, na década de 1580, descreveu os machos como homens de boa estatura com os olhos muito encovados, e as fêmeas como mulheres bonitas de cabelos compridos, e contou o modo de matar: um abraço tão apertado que despedaçava o corpo da vítima por dentro, deixando-a inteira por fora. Gabriel Soares de Souza, senhor de engenho na Bahia, registrou em 1587 os mesmos corpos aparecendo mordidos na boca, no nariz e nas partes íntimas, arrastados para debaixo d'água por pescadores que juravam ter visto uma cabeça humana emergir e puxar o morto, cena que espantou tanto os que assistiram que ninguém quis voltar a pescar ali por muitos dias. O jesuíta Simão de Vasconcelos afirmou ter visto, na Bahia, grutas inteiras cheias de ossadas dos "peixes homens e peixes mulheres", com um único traço que os distinguia de esqueletos humanos comuns: um buraco na nuca, por onde, diziam, respiravam.

O relato mais tardio, do astrônomo jesuíta Valentin Stansel, descreve um episódio no Espírito Santo em que índios lançaram sobre um Ipupiara flechas certeiras até vê-lo sangrar na areia; cabeça quase de cachorro, corpo escamado da cintura para baixo. Câmara Cascudo, muito depois, atribuiria ao Ipupiara a origem de figuras posteriores como o Caboclo-d'Água e o Negro-d'Água, mas fez questão de negar qualquer parentesco com a Iara: o Ipupiara não seduz com canto, não hipnotiza, não poupa vida alguma. É predador puro, o mais antigo do litoral brasileiro.

Aparência física

Cerca de três metros de altura (quinze palmos, segundo Gândavo), corpo coberto de pelos negros, focinho com bigodes longos e grossos, olhos muito encovados. Os machos são descritos como homens de boa estatura; as fêmeas, como mulheres de rara beleza e cabelos compridos. Da cintura para baixo, cauda ou escamas de peixe. O esqueleto tem um traço único: um orifício na nuca, por onde a criatura respira.

Comportamento e hábitos

Ataca pescadores, mariscadoras e lavadeiras próximo à foz de rios e à orla, sobretudo durante o verão. Mata por afogamento ou por um abraço fortíssimo que despedaça o corpo da vítima por dentro; depois, come apenas os olhos, o nariz, os dedos das mãos e dos pés e as genitálias, deixando o resto do corpo, que costuma aparecer na maré vazia, mordido nesses pontos exatos. Solta gemidos de lamento depois de matar, e foge em seguida.

Como aplacar

Nenhuma oferenda ou trégua é registrada nas fontes. Diferente do Curupira, o Ipupiara não negocia: a única prevenção documentada é evitar as águas costeiras à noite, sobretudo sozinho, e não se aproximar da foz dos rios no verão.

Fuga e fraquezas

Pode ser ferido e morto por arma branca ou por flecha certeira, como provam o combate de Baltasar Ferreira em 1564 e o episódio relatado por Valentin Stansel no Espírito Santo, mas em ambos os casos o enfrentamento exigiu coragem extrema e deixou marca duradoura em quem venceu.