
Bruxa (Bruxas de Florianópolis)
As Senhoras da Meia-Noite Açoriana
Cumprimenta-se apenas com a mão esquerda; sinal, dizem, de quem faz pacto com o que não se nomeia.
PRONÚNCIABRU-xa
ORIGEMIbérico
APURAÇÃOmedia
O medo da bruxa nasceu para vigiar portas e berços, mas carrega no fundo a memória de mulheres reais caçadas por serem diferentes.
Figura universal do imaginário humano, a Bruxa ganhou rosto próprio na Ilha de Santa Catarina com a colonização açoriana: mulheres que se transformam em coruja, morcego ou mariposa negra, roubam embarcações e sequestram crianças que não dormem. Foi o pesquisador Franklin Cascaes quem, por trinta anos, transformou os relatos orais da ilha em acervo documentado.
Adriano Augusto, cores · Yildiray Cinar, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
5 parágrafos · 2 min de leitura
A Bruxa é, talvez, a lenda mais internacional de todas: está na Grécia Antiga, nos reinos anglo-saxônicos medievais, nos contos de fadas europeus, e sobretudo numa das páginas mais sombrias da história ocidental; a perseguição e a execução, entre os séculos XV e XVIII, de milhares de pessoas, a maioria mulheres, condenadas por bruxaria em julgamentos arbitrários movidos por medo, inveja e disputa de terra. A imagem consolidada é conhecida por qualquer criança: velha de nariz adunco, corcunda, caldeirão fervendo, encontro com o Diabo às sextas-feiras, fuga voando numa vassoura.
O Brasil herdou essa figura e a transformou. Segundo A. S. Franchini, a marca distintiva da Bruxa brasileira é o poder de se metamorfosear em coruja, morcego ou mariposa negra, e é por essa forma alada que ela consegue atravessar qualquer fresta e entrar em qualquer casa, por mais trancada que esteja. Como no caso do Lobisomem, cujo sétimo filho homem não batizado corre risco de virar monstro, a caçula de sete irmãs também carrega uma sentença: se chegar ao sétimo aniversário sem batismo, torna-se bruxa. A regra transforma um acidente de nascimento, ser a sétima filha de uma família pobre demais, ocupada demais, ou descuidada demais para batizar a tempo, numa condenação sobrenatural.
Foi em Florianópolis, porém, que a lenda ganhou sua expressão mais rica e mais brasileira. A colonização açoriana, que povoou a Ilha de Santa Catarina a partir do século XVIII, trouxe consigo toda uma tradição de bruxaria própria dos Açores, e essa tradição encontrou na ilha um solo fértil para se reinventar. Ali, contam, as bruxas roubam embarcações de pescadores à noite, transformam-se em borboletas gigantes para vigiar sem serem vistas, e dão nós indesatáveis nas crinas dos cavalos como assinatura de sua passagem, um dano pequeno, quase brincalhão, que ao mesmo tempo avisa: alguém esteve aqui, e não era humano.
Foi o ilhéu Franklin Cascaes quem, ao longo de trinta anos de trabalho, coletou depoimentos, histórias e crenças dos moradores da Ilha de Santa Catarina, transformando a oralidade dispersa da comunidade açoriana num acervo de milhares de peças, cerâmicas, gravuras, desenhos, escritos, hoje preservado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Só depois dos sessenta anos seu trabalho começou a ser reconhecido e divulgado, mas foi ele quem garantiu que as bruxas da ilha não desaparecessem como boato de pescador: viraram documento, viraram arte, viraram parte inegociável da identidade cultural de Florianópolis.
A face mais sombria da lenda, comum a quase todas as suas variantes, é a predação sobre crianças: a Bruxa rapta quem não dorme e é mal-comportado, e depois lhes suga o sangue; inclusive de recém-nascidos, pelo umbigo, se a parteira esquecer de deixar uma tesoura aberta sob o berço até o sétimo dia de vida. Contra ela, os símbolos sagrados funcionam, e o alho, pendurado em cabeças inteiras nas portas e paredes, é a defesa doméstica mais conhecida.
Aparência física
Na tradição europeia clássica: velha de nariz adunco e verrugoso, grande corcunda, sempre às voltas com poções e caldeirão. Na variante brasileira e açoriana, o corpo humano é secundário, o que define a Bruxa é a capacidade de assumir forma de coruja, morcego ou mariposa negra, formas que atravessam frestas onde nenhum corpo humano passaria. Cumprimenta sempre com a mão esquerda.
Comportamento e hábitos
Reúne-se com o Diabo e outras bruxas nas noites de sexta-feira. Na Ilha de Santa Catarina, além do sequestro de crianças, ronda embarcações pesqueiras para roubá-las e visita estábulos para dar nós nas crinas dos cavalos, sinal de sua passagem noturna. Entra em qualquer casa por frestas mínimas, assumindo forma alada.
Fuga e fraquezas
Símbolos sagrados afastam a Bruxa. Alho, sobretudo cabeças inteiras penduradas em portas e paredes, mantém sua distância. Deixar uma tesoura aberta sob o berço de um recém-nascido, até o sétimo dia de vida, impede que ela sugue o sangue pelo umbigo.
Notas antropológicas
A Bruxa condensa dois medos históricos diferentes numa só figura. O primeiro é europeu e documentalmente concreto: a caça às bruxas dos séculos XV a XVIII não foi metáfora, foi extermínio real, majoritariamente de mulheres pobres, viúvas, curandeiras e qualquer pessoa que destoasse, a Inquisição usou a acusação de bruxaria como instrumento de controle social e religioso. O segundo medo, já em solo brasileiro e açoriano, é doméstico: controlar o comportamento infantil (dormir cedo, obedecer) e vigiar a fidelidade e a integridade da família (a filha não batizada, o berço desprotegido).
A variante da Ilha de Santa Catarina acrescenta uma camada de identidade cultural: a bruxaria açoriana não é resíduo de superstição importada, é parte constitutiva de como a comunidade ilhoa se enxerga, e o trabalho de Franklin Cascaes é prova de que uma cultura popular pode transformar boato oral em patrimônio documentado, sem perder o mistério que a torna viva.
Contexto histórico
A perseguição histórica a supostas bruxas concentrou-se entre os séculos XV e XVIII, sob condenações da Santa Inquisição, embora figuras semelhantes já existissem desde a Grécia Antiga e os reinos medievais anglo-saxônicos. No Brasil, a colonização açoriana da Ilha de Santa Catarina, a partir do século XVIII, trouxe a tradição de bruxaria dos Açores para o litoral catarinense.
O pesquisador Franklin Cascaes (1908; 1983), nascido em São José (SC), dedicou cerca de trinta anos à coleta de relatos orais sobre bruxas, lendas e superstições da cultura açoriana da ilha, produzindo um acervo de aproximadamente 3.000 peças em cerâmica, madeira, cestaria e gesso, 400 gravuras, 400 desenhos e um conjunto extenso de textos, hoje sob guarda da Universidade Federal de Santa Catarina. Seu trabalho só ganhou reconhecimento amplo em 1974, quando ele tinha 66 anos, e inspirou, em 1991, a minissérie Ilha das Bruxas, da extinta Rede Manchete.
“"De se transformar em coruja, morcego ou mesmo em uma mariposa negra"”
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.26
- historicaA. S. Franchini, As 100 melhores lendas do folclore brasileiro (citado no artbook)
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_CascaesCC BY-SA 4.0


