Vitória-Régia

Vitória-Régia

A Que Quis Ser Estrela e Virou Flor das Águas

Toda noite ela reabre os braços para a lua que nunca desce.

PRONÚNCIAvi-TÓ-ria RÉ-gia

ORIGEMTupi

NOME DE ORIGEMuapéywa-pé, 'o que está na água'

APURAÇÃOalta

Amor que persegue o inalcançável não desaparece: floresce toda noite, à espera de um abraço que a lua nunca devolve.

NO ARCADEPeça 4 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

Uma jovem apaixonada por Jaci, o deus-lua, tentou alcançar o reflexo dele na água e morreu afogada. Comovido, Jaci não a transformou em mais uma estrela distante: fez dela a "estrela das águas", uma flor gigante que só desabrocha à noite e muda de cor ao amanhecer, como se corasse ao ser finalmente tocada.

ARTBOOK

O CAUSO

6 parágrafos · 2 min de leitura

Na tradição tupi-guarani, Jaci é o deus da lua, um guerreiro belo e poderoso que desce à Terra durante a noite, segundo o que os pajés ensinavam. Havia uma cunhatã que o admirava a ponto de perder o sono: passava as noites acordada, sonhando em ser escolhida por ele e transformada numa estrela do próprio céu, como a lenda prometia às mais devotadas.

Numa dessas noites, caminhando pela margem do rio, ela viu o reflexo da lua tremendo na água parada. Não hesitou: acreditou que o guerreiro celestial tinha finalmente descido para encontrá-la, e atirou-se nas águas profundas para abraçá-lo. Só quando a ilusão se desfez, com a água já fechada sobre ela, percebeu que não havia braços ali para segurá-la, e não teve forças para voltar.

Jaci viu a devoção da jovem e a pureza de um amor que a matou por engano. Podia tê-la transformado em mais uma luz distante entre milhares, indistinguível no céu. Escolheu outra coisa: fez dela a "estrela das águas", uma planta aquática só dela, gigantesca, que nenhuma outra espécie do continente igualaria em tamanho. Suas flores desabrocham exclusivamente à noite, exalando um perfume adocicado que lembra frutas maduras, e permanecem brancas na primeira noite de abertas. É nessa hora que atraem os besouros polinizadores, que entram atrás do cheiro e ficam presos dentro da flor até o amanhecer, aquecidos e alimentados por um tecido esponjoso que a própria planta produz, como se a flor, assim como a jovem fez com o reflexo da lua, abraçasse algo até não conseguir mais soltar.

Na segunda noite, já fecundada, a flor muda de cor: as pétalas que eram brancas assumem um tom rosado, quase vermelho, antes de submergir. É o rosto da cunhatã, dizem, corado pelo toque que finalmente aconteceu; tarde demais para salvá-la, a tempo de eternizá-la.

A folha que sustenta essa flor é igualmente descomunal: um disco que chega a dois metros e meio de diâmetro, com bordas erguidas como as de uma forma de fazer farinha de mandioca; origem de um dos seus muitos nomes populares, "forno-de-jaçanã". Debaixo da água, espinhos protegem o caule e a folha de peixes e outros herbívoros, e a planta cresce agressiva o bastante para sufocar qualquer vizinha que dispute com ela o mesmo pedaço de rio.

Quem vê a vitória-régia hoje, boiando quieta sobre um igarapé, dificilmente reconhece nela o gesto desesperado que a mitologia lhe atribui. Mas o ciclo se repete, noite após noite, exatamente como a lenda descreve: a flor se abre sozinha ao escurecer, espera, prende o que se aproxima, e só na manhã seguinte revela, na mudança de cor, que alguma coisa aconteceu ali dentro. É o mesmo movimento da cunhatã em direção ao reflexo; abrir os braços para algo que talvez não devolva o abraço, e mudar para sempre por causa disso.

Aparência física

Folha circular flutuante, de até 2,5 metros de diâmetro, bordas levantadas em toda a volta, capaz de sustentar dezenas de quilos bem distribuídos sobre a superfície. Flor de até 30 a 40 centímetros, branca na primeira noite, rosa-avermelhada na segunda, com perfume noturno adocicado. Caule e face inferior da folha cobertos de espinhos.

Comportamento e hábitos

Floração estritamente noturna: os botões começam a abrir ao entardecer e liberam um cheiro frutado que atrai besouros do gênero Cyclocephala. A flor se fecha ao amanhecer, prendendo os polinizadores até a noite seguinte, quando os liberta já cobertos de pólen; o mesmo besouro segue então para outra flor recém-aberta, repetindo o ciclo. Cresce em touceiras que competem agressivamente por espaço e luz, sombreando e enfraquecendo plantas vizinhas.

Como aplacar

Não há oferenda ou súplica registrada; a planta não pune, apenas floresce. Nas religiões afro-brasileiras, a vitória-régia é usada como folha sagrada em rituais, sob o nome de oxibata: honrá-la, ali, é tratá-la como elemento litúrgico, não como algo a ser apaziguado.

Fuga e fraquezas

Os espinhos no caule e na face inferior da folha são sua defesa real contra peixes e herbívoros aquáticos, e, segundo observação botânica recente, também servem para abrir espaço à força entre outras plantas rivais, empurrando-as para longe conforme a folha cresce.