
Tutu Marambá
O Antigo Senhor dos Terrores Noturnos
Filho da fome que roubaram, pai do medo que ainda ensinam.
PRONÚNCIATU-tu ma-ram-BÁ
ORIGEMAfro-Bantu
NOME DE ORIGEMKitu'tu““quitutu”/“kitu’tu”, em quimbundo; “temível”, “assustador”, “ogro””
APURAÇÃOalta
Sem forma fixa, o Tutu é o molde vazio onde cada geração deposita o medo que já carregava antes mesmo de aprender seu nome.
Não tem forma fixa; é pura escuridão em alguns relatos, porco-do-mato monstruoso em outros, criatura sem cabeça em outros ainda. O Tutu Marambá é o mais antigo guardião do sono infantil no imaginário brasileiro, com raiz na palavra quimbundo para "ogro" e uma dezena de nomes regionais: Tutu Zambê, Tutu-Roncador, Queixada, Tutu-Moringa.
Natália Marques, cores · PJ Kaiowá, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
7 parágrafos · 2 min de leitura
Antes de qualquer outro nome ter existido, já havia um Tutu.
O folclorista Câmara Cascudo o coloca no topo de uma lista que batizou de "ciclo da angústia infantil"; o primeiro nome, o mais antigo, o que abriu caminho para todos os outros bichos-papões que vieram depois. Teve fase de fama enorme entre pais e filhos, tratado como parente próximo do bicho-papão europeu, e mesmo hoje, menos lembrado do que já foi, não perdeu um grama da fome.
Adora carne de criança, e, segundo a tradição, prefere primeiro a das mais bonitas, por pura inveja da própria feiura. Só depois passa às que fazem birra e choram para não dormir. É bicho desforme, difícil de descrever com precisão, porque cada região o desenha à sua maneira: na Bahia vira um porco-do-mato monstruoso; em outros lugares é descrito sem cabeça alguma; em todas as versões, é pura escuridão. Basta ouvir o nome para que uma criança já feche os olhos e se enrole na cama, efeito que gerações de pais souberam explorar sem escrúpulo.
Os nomes se multiplicam conforme a região: Tutu Zambê, Tutu Marambaia, Queixada, Tutu-Roncador. Mas nenhuma variante pesa tanto quanto a história do Tutu-Moringa, batizado assim pela barriga inchada e o pescoço comprido, parecidos com os de um cântaro de água. Diz a tradição que foi, em vida, um homem africano que teve os próprios filhos arrancados dele para serem escravizados no Brasil, sem chance sequer de um último abraço. Passou o resto da vida procurando-os. A morte não encerrou a busca: continua, ainda hoje, atrás de crianças que andam sozinhas à noite, na tentativa impossível de finalmente levá-las para casa, a casa que os filhos dele nunca tiveram.
É o mesmo impulso, torto pela dor, que faz o Tutu-Moringa levar quem anda sozinho à noite e devorar quem se recusa, chorando, a dormir.
Mais descrito nas literaturas, porém, é o Tutu Marambá, ou Marambaia, do tupi marabae, "ruidoso", nome que em algumas regiões descreve literalmente sua chegada barulhenta. Contra ele funciona um gesto simples: bater o pé com firmeza no chão e mandá-lo embora em voz alta. Contra qualquer um dos Tutus, existe uma cantiga própria, e aprendê-la de cor, dizem as famílias que ainda cantam, vale mais do que qualquer porta trancada.
Nenhum desses nomes é acidente de tradução. Marambá, segundo os estudiosos, tanto pode significar "filho de índio com estrangeiro" quanto derivar do tupi que descreve o barulho; duas leituras que convivem sem se anular, exatamente como convivem as várias formas do próprio Tutu. É esse feixe de origens cruzadas, quimbundo na raiz do nome, tupi na variante mais famosa, memória africana no Tutu-Moringa, que faz do Tutu Marambá menos uma criatura única e mais um ponto de encontro entre tradições que o Brasil colonial nunca deixou de misturar, mesmo à força.
Aparência física
Sem forma fixa e sem contorno definido na maioria dos relatos, descrito como pura escuridão. Onde ganha traço regional, aparece como monstruoso porco-do-mato (Bahia) ou como criatura sem cabeça. O Tutu-Moringa tem barriga gorda, pescoço longo, lembrando um cântaro de água, olhos vermelhos e mãos terminadas em garras afiadas.
Comportamento e hábitos
Prefere devorar primeiro as crianças bonitas, por inveja da própria feiura; depois, as que choram e se recusam a dormir. O Tutu-Moringa persegue especificamente quem anda sozinho à noite, levando-as embora na tentativa eterna de reunir uma família que a escravização lhe roubou. Recua diante de quem bate o pé com firmeza no chão e o manda embora, ou de quem canta a cantiga correta para a variante que está à porta.
Como aplacar
Não há oferenda registrada; dormir sem birra, no horário certo, é o mais próximo de um acordo que a tradição descreve.
Fuga e fraquezas
Bater o pé com firmeza no chão e ordenar em voz alta que vá embora. Cantar a cantiga específica de cada variante reforça o efeito, as famílias que preservam a tradição consideram-na mais eficaz do que o gesto sozinho.
Notas antropológicas
O Tutu Marambá é, em sua camada mais visível, um clássico bicho-papão de disciplina do sono, mas a etimologia quimbundo, preservada intacta há séculos na boca de crianças brasileiras que nunca souberam de onde vinha a palavra, é prova de quanto do vocabulário do medo infantil no Brasil tem raiz africana, não apenas europeia.
A camada mais funda é o Tutu-Moringa, e ali o mito deixa de ser apenas didático. Um pai que perdeu os filhos para a escravização, condenado a segui-los mesmo depois de morto, tentando eternamente levar crianças "para casa", a mesma casa que a violência colonial destruiu para ele, não é uma história inventada para assustar por assustar. É luto transformado em mito, e o terror que ele provoca é inseparável da atrocidade histórica que o originou. Tratar o Tutu-Moringa como só mais um bicho-papão apaga essa camada; reconhecê-la é o que torna o mito, de fato, significativo.
A ausência de forma fixa, ora porco, ora sem cabeça, ora pura escuridão, também tem função: cada comunidade projeta nele o medo que já carregava antes de conhecer o nome, fazendo do Tutu menos uma criatura com corpo definido e mais um molde vazio pronto para receber qualquer pavor local.
Contexto histórico
É descrito na literatura folclórica como uma das figuras centrais do que Câmara Cascudo chamou de "ciclo da angústia infantil", tendo vivido fase de grande popularidade entre pais e filhos brasileiros antes de ser parcialmente ofuscado por outras figuras do mesmo grupo, como a Cuca. A etimologia a partir do quimbundo é registrada no verbete "Bicho-papão" da Wikipédia PT, que lista "tutu" entre os nomes regionais dessa família de entidades.
“"Tutu Marambaia, não venhas mais cá, que o pai do menino te manda matá"”
“"Vá embora, Tutu-Moringa, a toda pressa, pela restinga, corra, corra, vá ligeiro"”

Parente elemental
Bicho-Papão
Mesma família de bogeyman ibero-brasileiro; "tutu" é um dos nomes regionais listados no próprio verbete de Bicho-papão

Companheira
Cuca
Outra guardiã do sono infantil, mesma função de "dorme ou serás levado"

Companheira
Papa-Figo
Convive no imaginário nordestino/sudestino como ameaça noturna a crianças desobedientes
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.106
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Bicho-papãoCC BY-SA 4.0
