Mula Sem Cabeça

Mula Sem Cabeça

A Noite em Que a Mulher Vira Fera

Toda sexta, alguém paga sozinha por um pecado de dois.

PRONÚNCIAMU-la-sem-ca-BE-ça

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

A culpa de um pecado a dois recai inteira sobre o corpo dela, e nem a cura acontece sem a mão de quem a condenou.

NO ARCADEPeça 8 no 2048Carta inicialJá vem aberta na coleção de quem cria conta.

A mulher que mantém um caso com um padre é condenada, nas noites de quinta para sexta-feira, a se transformar numa mula sem cabeça; labaredas onde deveria haver focinho, um freio de ferro manchado de sangue flutuando no meio do fogo. Ela galopa desgovernada até o amanhecer, atropelando o que encontra pela frente. A maldição nunca recai sobre o padre.

ARTBOOK

Joe Prado, lápis, arte-final · Marcelo Maiolo, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

6 parágrafos · 2 min de leitura

A regra é sempre a mesma, em qualquer versão que se conte: a mulher que se envolve com um clérigo carrega, a partir daí, uma sentença que não precisa de julgamento. Toda quinta-feira à noite, antes da meia-noite, ela precisa deixar sua casa em silêncio, sem acordar ninguém, sem que ninguém saiba, e caminhar até o pátio de uma igreja. É lá que a transformação acontece, e as fontes concordam que é dolorosa. No lugar da cabeça e do rabo, nascem labaredas vivas. No meio do fogo da cabeça, às vezes visível, às vezes só sugerido, flutua um freio de ferro manchado de sangue, preso a uma mandíbula que ninguém consegue ver. O relincho que sai dali é mais alto do que o de qualquer égua comum, e por baixo dele, quem se aproxima o bastante jura escutar soluços; humanos, não animais.

A partir daquele instante, não há mais mulher: só a fera correndo. Ela precisa atravessar sete cidades antes que o dia clareie, e nesse trajeto quase nada a detém. Derruba cercas, atropela quem estiver na estrada, destrói o que estiver no caminho, e volta a ser gente só depois de cumprida a rota inteira, silenciosamente, a tempo de estar de novo em casa antes que alguém note sua ausência.

Quem cruza com ela nesse estado tem duas instruções precisas, transmitidas de geração em geração: fechar a boca e esconder as mãos. A Mula se alimenta de dentes e unhas, então é saudável mantê-los onde estão. Também convém manter distância; os coices dela são fatais, capazes de despedaçar homem e animal na mesma pancada.

Existe reversão, mas ela custa coragem. É preciso tirar sangue da fera, nem que seja uma gota só, ou arrancar-lhe o freio de ferro do meio do próprio fogo em que ele flutua. Feito isso, a mulher reaparece imediatamente, nua, humana de novo, e enquanto quem a libertou continuar morando na mesma cidade, ela não volta a se transformar. Mas há uma segunda condição, mais dura de cumprir: o padre precisa amaldiçoá-la sete vezes, antes de voltar a celebrar missa, para que o encanto se desfaça de vez. A iniciativa da cura, note-se, nunca é dela.

A mula virou símbolo desse pecado específico por uma razão prática, não simbólica: era o meio de transporte mais comum entre os religiosos, valorizada havia séculos por resistir bem a viagens longas; os cavalos, mais rápidos e mais valiosos, ficavam reservados aos soldados em batalha. A montaria do padre virou, no imaginário popular, o corpo da amante do padre.

A lenda chegou ao Brasil com portugueses e espanhóis e hoje tem nome em praticamente toda a América Latina: Mula Anima na Argentina, Marola no México, Burrinha de Padre no Nordeste brasileiro, Cavala-canga no Maranhão; essa última, raiz direta da Cumacanga, entidade amazônica que reduz a maldição só à cabeça.

Aparência física

Corpo de mula onde deveriam estar a cabeça e o rabo há apenas fogo vivo. No meio das chamas da cabeça, um freio de ferro manchado de sangue flutua sozinho, sustentado por uma mandíbula invisível. O relincho supera em volume o de qualquer equino real; sob ele, ouvem-se soluços humanos.

Comportamento e hábitos

Transforma-se sozinha, em silêncio, no pátio de uma igreja, sempre antes da meia-noite de sexta-feira. Uma vez fera, corre em disparada por sete cidades antes do amanhecer, atropelando tudo o que encontra no caminho. Alimenta-se de dentes e unhas de quem se aproxima demais. Retorna à forma humana sozinha, sem ajuda, apenas quando termina o percurso, a menos que alguém force a reversão antes disso.

Como aplacar

Não há oferenda ou acordo de trégua registrado nas fontes consultadas. A relação da Mula Sem Cabeça com quem cruza seu caminho é sempre de perigo direto, nunca de negociação.

Fuga e fraquezas

Fechar a boca e esconder as mãos ao avistá-la, ela se alimenta de dentes e unhas. Manter distância dos coices, capazes de matar. Para revertê-la à forma humana: tirar sangue do animal, mesmo que uma gota, ou arrancar o freio de ferro do meio do fogo. A cura definitiva depende ainda de o padre amaldiçoá-la sete vezes antes de celebrar missa.