Loira do Banheiro

Loira do Banheiro

O Espelho Que a Chama de Volta

Bata três vezes. Ela sempre responde.

PRONÚNCIAloi-ra-do-ba-NHEI-ro

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

A lenda escolar transforma uma vítima de casamento forçado em culpada pela própria vaidade.

NO ARCADEPeça 16 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Fantasma de uma estudante que assombra banheiros escolares, sobretudo no Sudeste, e só se manifesta quando chamada por um ritual específico; três batidas na porta, três chutes na privada, três descargas, três palavrões diante do espelho. Por trás da lenda infantil está uma mulher real, casada à força aos catorze anos, morta jovem e longe de casa.

Diógenes Neves, lápis, arte-final · Marcio Menyz, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

5 parágrafos · 2 min de leitura

O ritual varia um pouco de escola para escola, mas o núcleo se repete em quase todo relato: bater na porta do banheiro três vezes, chutar a privada mais três, dar descarga na última cabine outras três vezes, e terminar dizendo um palavrão diante do espelho, também três vezes. Cumprido o roteiro, a Loira aparece refletida no vidro; sempre para quem estiver sozinha, quase sempre no banheiro feminino. Descrevem-na de vestido branco manchado de sangue, com algodão tampando nariz, boca e ouvidos, às vezes também ensanguentado. Em Pernambuco a chamam de Mulher do Algodão por esse detalhe; em outros lugares, de Big Loira, nome que denuncia a influência direta do mito americano da Bloody Mary, cujo próprio ritual de invocação segue um roteiro muito parecido.

A versão que circula nos pátios escolares é simples: uma menina matava aula para se admirar no espelho do banheiro, escorregou, bateu a cabeça na privada e morreu. Desde então, aparece quando chamada. É uma história de vaidade punida, e é, quase certamente, uma versão distorcida de um caso real.

No interior paulista, o Visconde de Guaratinguetá tinha uma filha chamada Maria Augusta de Oliveira. Aos catorze anos, o pai a obrigou a casar com um homem muito mais velho, o conselheiro Dutra Rodrigues. O casamento não durou: infeliz, Maria Augusta vendeu as próprias joias e fugiu para Paris. Lá, aos vinte e seis anos, morreu de forma repentina e nunca totalmente esclarecida; seu atestado de óbito desapareceu, e a hipótese mais repetida, a de raiva, doença então comum na Europa, segue sem confirmação. Contam que, no exato momento da morte, um espelho se quebrou sozinho na casa dos pais, do outro lado do oceano.

O corpo voltou ao Brasil dentro de um caixão com as joias da família embrulhadas em algodão; caixão que foi violado no caminho, e as joias, roubadas. Já em casa, a família manteve o corpo por muitos dias sob uma redoma de vidro, à espera de que o túmulo ficasse pronto. A mãe, Amélia Augusta, arrependida de ter forçado o casamento da filha, resistia em enterrá-la; só cedeu depois de meses tendo pesadelos e vendo aparições estranhas nos espelhos da própria casa. Maria Augusta foi finalmente sepultada no cemitério da cidade, e seu jazigo segue entre os mais visitados até hoje.

Dez anos depois, em 1902, a casa onde ela vivera virou a Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves. Não demorou para que surgissem relatos do espírito da jovem vagando pelos corredores e, sobretudo, pelos banheiros; abrindo torneiras, como se ainda buscasse saciar uma sede antiga, e pedindo, segundo alguns relatos, o próprio enterro. Um incêndio misterioso em 1916 deu ainda mais força à história. A partir daí, o relato se espalhou por outros colégios brasileiros e, ao longo do século XX, fundiu-se com a Bloody Mary norte-americana, herdando dela boa parte do ritual de invocação e da iconografia hoje associada à Loira.

Aparência física

Vestido branco manchado de sangue, cabelo loiro. Nariz, boca e ouvidos tampados com algodão, às vezes também ensanguentado; detalhe que lhe rende, em Pernambuco, o nome de Mulher do Algodão.

Comportamento e hábitos

Manifesta-se apenas quando invocada pelo ritual completo, e preferencialmente para quem estiver sozinha no banheiro. Aparece refletida no espelho. Segundo os relatos escolares mais antigos, também vaga pelos corredores e pátios da escola abrindo torneiras e pregando peças.

Como aplacar

Não há oferenda ou ritual de trégua registrado; a relação com ela é de invocação, não de apaziguamento. Não convocá-la é a única forma de evitar contato.

Fuga e fraquezas

As fontes consultadas não registram um método específico de expulsão ou proteção além de não completar o ritual de invocação. Interromper as batidas, chutes ou descargas antes do fim é a única precaução citada.