Encantadas

Encantadas

As Sereias que se Recusam a Morrer

Não morreram. Encantaram-se, e é esse, desde sempre, o nome deste lugar inteiro.

PRONÚNCIAen-kan-TA-das

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOmedia

Transformar-se não é desaparecer, é a prova de que a existência sobrevive à forma que a nomeia.

NO ARCADEPeça 128 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Ao sul da Ilha do Mel, no litoral do Paraná, mulheres de beleza extraordinária saem da Gruta das Encantadas para cantar e dançar sobre a água ao nascer e ao pôr do sol. Atraem embarcações para os rochedos e banhistas para dentro da própria gruta. Mas o nome que carregam é maior que a lenda que as originou: "encantada" é a palavra que dá nome a toda uma religião viva.

Dijjo Lima, cores · Rogê Antônio, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

5 parágrafos · 3 min de leitura

Na ponta sul da Ilha do Mel, litoral paranaense, existe uma gruta batizada com o nome das mulheres que, segundo quem vive ali, ainda a habitam. Os moradores da ilha contam a lenda das Encantadas havia gerações: sereias do sul do Brasil, provavelmente uma derivação regional do mito europeu das mulheres com cauda de peixe, trazido junto com a colonização e enxertado sobre uma geografia real; a mesma gruta, o mesmo farol, os mesmos rochedos que qualquer visitante da ilha pode hoje apontar no mapa.

São descritas com beleza que foge do comum: tons de pele exóticos, cabelos compridos em cores que nenhuma mulher da ilha carrega, algumas quase transparentes sob certa luz. Aparecem sempre nuas, sempre ao amanhecer e ao entardecer; dizem que sentem falta do calor e do brilho do sol de quando ainda viviam em terra firme, ou que saúdam o começo e o fim do dia como quem presta uma reverência a um deus. Foram, no passado, moradoras da própria ilha; a chegada de mais e mais gente as empurrou para o fundo do mar, e desde então evitam o contato humano; não por capricho, mas por rancor acumulado diante da destruição que o povoamento causou ao ambiente que já foi só delas.

O perigo delas não é bater, é chamar. Pescadores e marinheiros em alto-mar ouvem o canto muito antes de ver quem canta, e o som sozinho já basta para desviar embarcações do curso; os capitães mais experientes largam timão e remo, hipnotizados pelo balé flutuante das mulheres na água, e deixam barcos e canoas se espatifar contra os rochedos ao pé do farol que cerca a ilha. Ninguém sobrevive a esse naufrágio. O mesmo canto também alcança quem está em terra: banhistas e moradores da ilha, crianças e idosos igualmente, são atraídos até a boca da gruta, onde morrem afogados quando a maré sobe, ou ficam enfeitiçados, fundidos para sempre às próprias pedras da caverna.

Com o turismo cada vez mais intenso na ilha, dizem os moradores, as Encantadas apareceram cada vez menos; reclusas, cautelosas, talvez cansadas de uma ilha que já não reconhecem como sua. Isso não significa que tenham ido embora. Significa apenas que passaram a se mostrar menos.

Há, porém, uma camada desta história que ultrapassa a Ilha do Mel e explica por que este acervo inteiro se chama Encantaria. A palavra "encantada" não é sinônimo neutro de sereia: é a mesma palavra, com a mesma raiz, que nomeia uma categoria religiosa inteira, viva hoje, praticada por comunidades reais do Norte e do Nordeste do Brasil. Na Pajelança amazônica, no Tambor de Mina e no Terecô do Maranhão, no Babaçuê do Pará, e em ramos da Umbanda, os encantados não morreram; encantaram-se: desapareceram misteriosamente, tornaram-se invisíveis ou se transformaram em bicho, planta, pedra, e seguem existindo num mundo paralelo, com nome, sobrenome, família e a própria história de quando ainda viviam na Terra, contada por médiuns em transe. A Encantaria do Pará reconhece formalmente, entre seus encantados ligados às águas da região, o boto, a cobra grande, a Iara, a Vitória-Régia, e as sereias, a mesma palavra que nomeia as mulheres da gruta paranaense. Ninguém documentou culto às Encantadas de Ilha do Mel dentro de um terreiro; a ligação aqui é de raiz e de lógica, não de doutrina. Mas a lógica é exatamente a mesma que sustenta a Encantaria como religião viva: quem se transforma, ou desaparece de vista, não deixou, por isso, de existir.

Aparência física

Mulheres de beleza extraordinária, com tons de pele exóticos e cabelos longos em cores incomuns; alguns relatos as descrevem quase transparentes. Aparecem sempre nuas. São vistas dançando e flutuando sobre a água e a areia próximas à Gruta das Encantadas, ao sul da Ilha do Mel.

Comportamento e hábitos

Manifestam-se ao nascer e ao pôr do sol, e em noites claras de lua cheia. Atraem embarcações com o canto, desviando-as até que colidam contra os rochedos abaixo do farol da ilha, sem sobreviventes. Atraem também banhistas e moradores da ilha até a boca da própria gruta, onde as vítimas morrem afogadas com a subida da maré ou ficam enfeitiçadas dentro da pedra. Vivem no fundo do mar desde que o povoamento humano da ilha cresceu; evitam contato por rejeição à destruição ambiental causada pelos humanos. Tornaram-se mais reclusas com o aumento do turismo.

Como aplacar

Nenhuma oferenda ou negociação é registrada nas fontes. Ao contrário de entidades como o Curupira, as Encantadas não firmam acordo; a tendência registrada é o afastamento crescente do contato humano, não a abertura para trégua.

Fuga e fraquezas

Nenhuma fraqueza documentada. A única forma de proteção implícita nas fontes é preventiva: não seguir o som do canto, não se aproximar da gruta, evitar as águas junto aos rochedos do farol ao amanhecer, ao entardecer e em noite de lua cheia.