
Encantadas
As Sereias que se Recusam a Morrer
Não morreram. Encantaram-se, e é esse, desde sempre, o nome deste lugar inteiro.
PRONÚNCIAen-kan-TA-das
ORIGEMPortuguês
APURAÇÃOmedia
Transformar-se não é desaparecer, é a prova de que a existência sobrevive à forma que a nomeia.
Ao sul da Ilha do Mel, no litoral do Paraná, mulheres de beleza extraordinária saem da Gruta das Encantadas para cantar e dançar sobre a água ao nascer e ao pôr do sol. Atraem embarcações para os rochedos e banhistas para dentro da própria gruta. Mas o nome que carregam é maior que a lenda que as originou: "encantada" é a palavra que dá nome a toda uma religião viva.
Dijjo Lima, cores · Rogê Antônio, lápis, arte-final (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)
O CAUSO
5 parágrafos · 3 min de leitura
Na ponta sul da Ilha do Mel, litoral paranaense, existe uma gruta batizada com o nome das mulheres que, segundo quem vive ali, ainda a habitam. Os moradores da ilha contam a lenda das Encantadas havia gerações: sereias do sul do Brasil, provavelmente uma derivação regional do mito europeu das mulheres com cauda de peixe, trazido junto com a colonização e enxertado sobre uma geografia real; a mesma gruta, o mesmo farol, os mesmos rochedos que qualquer visitante da ilha pode hoje apontar no mapa.
São descritas com beleza que foge do comum: tons de pele exóticos, cabelos compridos em cores que nenhuma mulher da ilha carrega, algumas quase transparentes sob certa luz. Aparecem sempre nuas, sempre ao amanhecer e ao entardecer; dizem que sentem falta do calor e do brilho do sol de quando ainda viviam em terra firme, ou que saúdam o começo e o fim do dia como quem presta uma reverência a um deus. Foram, no passado, moradoras da própria ilha; a chegada de mais e mais gente as empurrou para o fundo do mar, e desde então evitam o contato humano; não por capricho, mas por rancor acumulado diante da destruição que o povoamento causou ao ambiente que já foi só delas.
O perigo delas não é bater, é chamar. Pescadores e marinheiros em alto-mar ouvem o canto muito antes de ver quem canta, e o som sozinho já basta para desviar embarcações do curso; os capitães mais experientes largam timão e remo, hipnotizados pelo balé flutuante das mulheres na água, e deixam barcos e canoas se espatifar contra os rochedos ao pé do farol que cerca a ilha. Ninguém sobrevive a esse naufrágio. O mesmo canto também alcança quem está em terra: banhistas e moradores da ilha, crianças e idosos igualmente, são atraídos até a boca da gruta, onde morrem afogados quando a maré sobe, ou ficam enfeitiçados, fundidos para sempre às próprias pedras da caverna.
Com o turismo cada vez mais intenso na ilha, dizem os moradores, as Encantadas apareceram cada vez menos; reclusas, cautelosas, talvez cansadas de uma ilha que já não reconhecem como sua. Isso não significa que tenham ido embora. Significa apenas que passaram a se mostrar menos.
Há, porém, uma camada desta história que ultrapassa a Ilha do Mel e explica por que este acervo inteiro se chama Encantaria. A palavra "encantada" não é sinônimo neutro de sereia: é a mesma palavra, com a mesma raiz, que nomeia uma categoria religiosa inteira, viva hoje, praticada por comunidades reais do Norte e do Nordeste do Brasil. Na Pajelança amazônica, no Tambor de Mina e no Terecô do Maranhão, no Babaçuê do Pará, e em ramos da Umbanda, os encantados não morreram; encantaram-se: desapareceram misteriosamente, tornaram-se invisíveis ou se transformaram em bicho, planta, pedra, e seguem existindo num mundo paralelo, com nome, sobrenome, família e a própria história de quando ainda viviam na Terra, contada por médiuns em transe. A Encantaria do Pará reconhece formalmente, entre seus encantados ligados às águas da região, o boto, a cobra grande, a Iara, a Vitória-Régia, e as sereias, a mesma palavra que nomeia as mulheres da gruta paranaense. Ninguém documentou culto às Encantadas de Ilha do Mel dentro de um terreiro; a ligação aqui é de raiz e de lógica, não de doutrina. Mas a lógica é exatamente a mesma que sustenta a Encantaria como religião viva: quem se transforma, ou desaparece de vista, não deixou, por isso, de existir.
Aparência física
Mulheres de beleza extraordinária, com tons de pele exóticos e cabelos longos em cores incomuns; alguns relatos as descrevem quase transparentes. Aparecem sempre nuas. São vistas dançando e flutuando sobre a água e a areia próximas à Gruta das Encantadas, ao sul da Ilha do Mel.
Comportamento e hábitos
Manifestam-se ao nascer e ao pôr do sol, e em noites claras de lua cheia. Atraem embarcações com o canto, desviando-as até que colidam contra os rochedos abaixo do farol da ilha, sem sobreviventes. Atraem também banhistas e moradores da ilha até a boca da própria gruta, onde as vítimas morrem afogadas com a subida da maré ou ficam enfeitiçadas dentro da pedra. Vivem no fundo do mar desde que o povoamento humano da ilha cresceu; evitam contato por rejeição à destruição ambiental causada pelos humanos. Tornaram-se mais reclusas com o aumento do turismo.
Como aplacar
Nenhuma oferenda ou negociação é registrada nas fontes. Ao contrário de entidades como o Curupira, as Encantadas não firmam acordo; a tendência registrada é o afastamento crescente do contato humano, não a abertura para trégua.
Fuga e fraquezas
Nenhuma fraqueza documentada. A única forma de proteção implícita nas fontes é preventiva: não seguir o som do canto, não se aproximar da gruta, evitar as águas junto aos rochedos do farol ao amanhecer, ao entardecer e em noite de lua cheia.
Notas antropológicas
A palavra que nomeia esta lenda é a chave de leitura de todo este acervo, e por isso vale desmontá-la com cuidado. "Encantada" é particípio de "encantar"; não indica apenas magia ou fascínio, indica um evento específico: alguém que não morreu, mas passou para outro estado de existência, paralelo e normalmente invisível ao mundo dos vivos. É essa palavra específica, e não "sereia" ou "sirene", que o litoral paranaense escolheu para nomear as mulheres da gruta, e essa escolha de vocabulário conecta a lenda de Ilha do Mel, ainda que apenas na raiz da palavra, a algo muito maior e muito mais sério do que uma história de naufrágio.
É preciso ser exato sobre o que essa conexão é e o que ela não é. As Encantadas de Ilha do Mel pertencem, com toda probabilidade documentada pelo próprio artbook, à linhagem folclórica da sereia europeia trazida na colonização; a mesma raiz ibérica que gerou a Princesa Encantada de Jericoacoara e que ecoa, à distância, a Iara amazônica. Não há fonte que documente culto a elas dentro de um terreiro de Tambor de Mina, Pajelança ou Umbanda; esta não é, aqui, uma entidade de culto.
O que existe, de fato e documentado, é uma religião afro-ameríndia viva; praticada hoje no Piauí, no Maranhão, no Pará e na Bahia, dentro da Pajelança, do Tambor de Mina, do Terecô, do Babaçuê e de ramos da Umbanda, em que "encantado" não é figura de linguagem: é categoria religiosa formal. Os encantados dessas tradições têm família, sobrenome, história de quando viveram na Terra, e são recebidos por médiuns em transe durante cerimônias que seguem acontecendo, hoje, em terreiros reais. A Encantaria do Pará lista nominalmente, entre seus encantados ligados à água, o boto, a cobra grande, a Iara, a Vitória-Régia e as sereias; a mesma palavra, a mesma lógica de transformação-sem-morte que a Ilha do Mel aplicou, talvez sem saber da coincidência, às próprias mulheres da gruta.
Tratar isso como coincidência de vocabulário seria raso. A palavra "Encantaria", que dá nome a este acervo inteiro, descreve exatamente esse gesto: recusar que transformação e desaparecimento sejam sinônimos de fim. Essa é a lógica de uma fé praticada por comunidades reais, com sacerdotes, iniciação e história documentada desde o século XIX; não decoração de folclore, não "crendice pitoresca", mas sistema religioso vivo que merece o mesmo respeito editorial dado a qualquer culto em atividade.
Contexto histórico
A Ilha do Mel, no litoral paranaense, é destino turístico com população residente pequena e forte tradição oral local, da qual a lenda das Encantadas é transmitida por moradores como parte do patrimônio da ilha; nenhum cronista colonial documentou esta lenda especificamente, ao contrário do que ocorre com o Curupira ou o Ipupiara. O conceito religioso mais amplo de encantado tem, por outro lado, documentação histórica extensa: a Pajelança de cura é registrada no Maranhão desde meados do século XIX, com o caso de Amélia Rosa, presa em 1876 por praticar rituais de cura de feitiço; o Tambor de Mina tem raízes na população africana escravizada trazida ao Maranhão majoritariamente entre 1750 e 1850; e a Encantaria, como sistema documentado por antropólogos, se consolida ao longo do século XX no Maranhão, no Piauí e no Pará.

Parente elemental
Boto Cor-de-Rosa
A Encantaria Paraense reconhece formalmente boto e sereias sob a mesma categoria de encantados ligados às águas da região

Variante
Iara (Mãe d'Água)
Mesma matriz de sereia sedutora fatal ligada à água, em extremos opostos do país

Variante
Princesa Encantada de Jericoacoara
Mesma linhagem ibérica de mulher transformada, com desfecho oposto: naufrágio letal em vez de espera eterna
- artbookChiaroscuro Studios Yearbook 2018, p.52
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/EncantariaCC BY-SA 4.0
- wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Encantado_(entidade)CC BY-SA 4.0
