Corpo-Seco

Corpo-Seco

O Homem Que Nem o Inferno Quis

"Ao morrer, nem Deus nem o diabo o quiseram; a própria terra o repeliu, enojada da sua carne."

PRONÚNCIACOR-po SE-co

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

Há violências que nem a morte perdoa, e cuja busca por perdão segue destruindo quem tenta ajudar.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Em vida, bateu e escravizou a própria mãe até matá-la. Na morte, nem o céu, nem o inferno, nem a terra onde foi enterrado o aceitaram de volta. Expulso da própria cova, o Corpo-Seco vaga ressequido pelas estradas, buscando alguém que o carregue até uma igreja, e mata de esgotamento todo aquele que tenta ajudar.

ARTBOOK

Júlio Ferreira; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

6 parágrafos · 2 min de leitura

Contam que foi um homem tão ruim, tão sistematicamente cruel, que a maldade dele não cabia só nos vizinhos e nos animais que maltratava: alcançou a própria mãe. Ele batia nela, escravizava-a dentro da própria casa, e antes de finalmente ser assassinado pelo filho, ela o amaldiçoou. A maldição levou anos para se cumprir, mas se cumpriu inteira.

Quando ele morreu, foi enterrado como qualquer outro. Só que a terra não o quis guardar. Anos depois, saiu da cova sozinho; não ressuscitado, não são, mas apodrecido, com a pele engelhada grudada nos ossos, mirrado ao ponto de nem os urubus, que comem qualquer coisa morta, aceitarem tocar naquela carne. Ficou, a partir daí, condenado a vagar entre os vivos sem descanso possível, gemendo as dores de todos a quem fez mal em vida, como se sua penitência fosse sentir, em looping, o sofrimento que causou.

Há uma saída teórica para o Corpo-Seco: encontrar alguém disposto a carregá-lo até uma igreja, onde um padre poderia benzê-lo e finalmente libertá-lo da maldição. Só que essa saída nunca se completa. Toda vez que alguém, movido por pena, tenta ajudá-lo, abraçá-lo, erguê-lo, levá-lo no colo, o próprio contato suga a energia vital de quem ajuda, definhando a pessoa até a morte. O Corpo-Seco não escolhe fazer isso: é o que ele é, uma maldição que se propaga por compaixão.

As variantes regionais mudam o pecado de origem, mas nunca o formato da punição. No interior paulista, em São Luiz do Paraitinga, corre a história de um homem que negou esmolas e agrediu frades mendicantes, sendo amaldiçoado por eles antes de morrer, seu corpo virou Corpo-Seco e foi expulso do cemitério da cidade. No Paraná, em Cambira, um relato registrado em artigo acadêmico conta de um homem que prometeu caminhar da própria fazenda até a Basílica de Aparecida assim que enriquecesse; ao ficar rico, quebrou a palavra e foi de avião pagar a promessa; tornou-se Corpo-Seco, e nem a própria família, oferecendo dinheiro, encontrou quem o carregasse pelo caminho que ele deveria ter percorrido a pé. Outro relato do mesmo artigo fala de um homem que morreu num acidente indo pagar promessa semelhante, foi enterrado perto da estrada que o levaria a Aparecida, e ainda hoje é visto correndo atrás de caminhões à noite, pendurando-se na cabine, pedindo carona, até desaparecer exatamente no ponto onde morreu.

Em Ituiutaba, Minas Gerais, o morro onde ele teria sido enterrado ficou conhecido como Serra do Corpo-Seco. Em Dois Córregos, São Paulo, a tradição local dá à mesma figura o nome de Unhudo da Pedra Branca. No Paraná e em Santa Catarina, quando é o espírito, e não mais o corpo, quem vaga gritando, o nome muda para Bradador.

Em todas as versões, uma regra se mantém: não é nem um pouco confiável dar carona, ajuda ou abraço a um estranho de estrada, ainda mais quando esse estranho já está morto havia anos.

Aparência física

Cadáver ressequido, com a pele engelhada colada diretamente sobre os ossos. Sai da cova apodrecido, num estado que nem os urubus aceitam consumir. Nas variantes rodoviárias mais recentes, é descrito correndo atrás de veículos e pendurando-se nas cabines dos caminhões.

Comportamento e hábitos

Vaga sem descanso por estradas, fazendas e adros de igreja durante a noite, gemendo as dores de todos a quem prejudicou em vida. Aborda viajantes pedindo ajuda; carona, transporte até uma igreja, o cumprimento de uma promessa não paga. Desaparece sempre no ponto associado à sua morte ou expulsão original.

Como aplacar

Não há oferenda capaz de aplacá-lo. A única forma de ajudá-lo, levá-lo até uma igreja para ser benzido, é também a forma mais letal de contato com ele: quem tenta é sugado até a morte.

Fuga e fraquezas

Nunca tocar nele, abraçá-lo ou tentar carregá-lo, por mais que o pedido pareça inofensivo. Recusar carona e contato físico é, segundo as fontes, a única forma segura de sobreviver ao encontro.