Barba Ruiva

Barba Ruiva

O Encantado que Lava as Mãos na Água que Ele Mesmo Criou

"Ficou a lagoa encantada, cheia de luzes e de vozes."

PRONÚNCIABAR-ba RUI-va

ORIGEMPortuguês

APURAÇÃOalta

A água pune quem mata por vergonha e adota, para sempre, quem a vergonha tentou apagar.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Nascido de um afogamento e criado por uma Mãe-d'Água, o Barba Ruiva envelhece e rejuvenesce a cada dia dentro da Lagoa de Parnaguá, no Piauí. Não persegue, não mata, não devora, mas nenhuma mulher da região lava roupa sozinha na beira da água.

O CAUSO

8 parágrafos · 2 min de leitura

A lagoa não existia antes da vergonha de uma família.

Uma viúva criava três filhas às margens de uma fonte pequena, no que hoje é Parnaguá. A caçula se apaixonou, engravidou, e o namorado morreu antes de casar. Na moral do sertão do século XIX, um filho sem pai era mais desonra do que luto, e a mãe da moça escolheu o segredo. A menina pariu escondida no mato e afogou o próprio filho recém-nascido dentro de um tacho de cobre, na água da fonte, esperando que a correnteza levasse embora tanto a criança quanto a vergonha.

A correnteza não levou nada embora. Levou até uma Mãe-d'Água.

A entidade recolheu o tacho do fundo antes que a água o engolisse de vez, e criou a criança como filha adotiva, e amaldiçoou a mãe assassina com a única punição que uma força das águas sabe aplicar: fez a fonte crescer. E crescer. E não parar mais. O que era um filete raso engoliu carnaubais, buritizais, terra que antes se plantava, até virar a Lagoa de Parnaguá que hoje se vê no mapa do Piauí. Por muito tempo, ninguém conseguiu morar na beira: a noite inteira, do fundo d'água subia um choro de bebê, como se ainda chamasse a mãe para o peito que nunca teve.

O filho da Mãe-d'Água cresceu dentro da própria água que sua origem havia criado, e cresce até hoje, todos os dias, do zero. Ao amanhecer é um menino qualquer. Ao meio-dia já é um homem de barba cor de fogo, forte, os cabelos molhados colados na testa. Ao entardecer envelhece de vez, barba branca, e volta a submergir. No dia seguinte recomeça.

É criatura pacífica, a fonte é enfática nisso. Não afoga ninguém, não arrasta ninguém para o fundo. Foge de homens adultos, que saem da beira da lagoa desorientados quando cruzam com ele. Já com lavadeiras e banhistas mulheres o comportamento muda: aproxima-se, abraça, rouba um beijo, e mergulha de volta antes que alguém grite. É por isso, não por medo de afogamento, mas por medo do abraço, que nenhuma mulher da região vai à lagoa lavar roupa sem companhia.

Quando emerge, sai coberto de lodo da lagoa que o criou, barba e unhas enegrecidas de lama de fundo. É nesses instantes, à beira d'água, que os moradores mais antigos dizem vê-lo quieto, lavando as próprias mãos na superfície; o único gesto doméstico de uma criatura que nunca teve infância de verdade, apenas o mesmo dia de infância se repetindo desde que foi afogado.

Diz Cascudo, encerrando o registro com a ironia de quem já viu muita gente prometer coragem: até hoje não nasceu a mulher valente o bastante para tentar desencantá-lo.

Aparência física

Varia com a hora do dia dentro do mesmo corpo: pele jovem e cabelo ruivo cedendo, com o avançar da tarde, a rugas e barba branca. No auge da forma adulta, tem físico robusto, cabelos e barba na cor do fogo, sempre molhados. Ao sair da água, carrega lodo e lama do fundo da lagoa grudados no peito, na barba e sob as unhas.

Comportamento e hábitos

Emerge e reencena o próprio envelhecimento todos os dias, do amanhecer ao entardecer. Evita confronto com homens, que ficam desorientados ao encontrá-lo. Aborda lavadeiras e banhistas para abraçar e beijar, e retorna à água em seguida, nunca causa dano além do susto. Nos instantes em que sai da lagoa, é visto quieto na beira, lavando as mãos na água que o criou.

Como aplacar

Não há oferenda registrada nas fontes consultadas, sua natureza pacífica não exige pedágio. A única forma de convivência documentada é evitar a lagoa desacompanhada.

Fuga e fraquezas

Segundo Cascudo, o desencantamento exigiria que uma mulher jogasse água benta e um rosário sacramentado sobre sua cabeça, ele é criatura "pagã" e só se libertaria sendo trazido ao batismo cristão. Nenhum relato confirma que isso já tenha sido tentado com sucesso.