Alamoa

Alamoa

A Rainha-Caveira do Temporal

Toda tempestade em Noronha é um convite. Poucos voltam para contar quem os recebeu.

PRONÚNCIAa-la-MO-a

ORIGEMPortuguês (corruptela popular)

APURAÇÃOmedia

A generosidade que se transforma em ganância nunca encontra o caminho de volta.

NO ARCADEPeça 32 no 2048A carta é liberada ao encontrar a entidade em um dos jogos.

Loira, coberta de joias, de olhos tão azuis quanto o mar que a cerca, a Alamoa aparece nas tempestades ao redor de Fernando de Noronha oferecendo abrigo e um tesouro escondido em sua gruta. Quem aceita enche os bolsos de ouro. Quem se vira para agradecer encontra uma caveira.

ARTBOOK

RB Silva; lápis, arte-final, cores (Chiaroscuro Studios Yearbook, 2018)

O CAUSO

5 parágrafos · 2 min de leitura

O nome já é uma pista de quem ela foi antes de virar lenda. Alamoa é a forma como os moradores mais antigos tentaram pronunciar "alemã", e essa origem estrangeira carrega, dentro da palavra, a memória de um tempo em que o Nordeste teve donos vindos do norte da Europa. Antes de ser assombração, diz a tradição, ela foi rainha de um castelo luxuoso, destruído quando esses europeus chegaram e tomaram a terra. O que sobrou dela foi a gruta, e o rancor de quem perdeu tudo.

É nas tempestades que ela aparece. Marinheiros pegos de surpresa no mar, viajantes encurralados numa praia deserta enquanto o céu desaba; esses veem, entre o vento e a chuva, uma mulher loira de olhos azuis, coberta de joias, oferecendo o que ninguém recusa num temporal: abrigo. Ela conduz o náufrago até sua morada de pedra, e ali, no fundo da gruta, revela o resto da oferta, um tesouro que parece não ter fundo, ouro e pedras preciosas amontoados como se o mar tivesse vomitado um reino inteiro.

Ninguém resiste. Os homens enchem os bolsos, os braços, o que conseguem carregar do corpo. E é só quando se viram para agradecer à anfitriã que descobrem o preço da hospitalidade: onde estava a rainha, agora há uma caveira asquerosa, pele derretida escorrendo sobre o osso. No mesmo instante, todo aquele ouro empunhado vira areia entre os dedos. A saída, que minutos antes parecia óbvia, desaparece. Os moradores da região dizem que, em certas noites de tempestade, ainda se ouvem gritos vindos de longe, do mar ou da própria gruta; os homens presos ali, sofrendo a tortura que a rainha-caveira reserva à ganância, sem esperança de fim.

Não há relato de quem tenha escapado. Não há barganha, oferenda ou palavra mágica que a demova, porque a Alamoa não pune um crime específico, pune o próprio ato de aceitar. O temporal é a isca, o tesouro é o anzol, e a única defesa registrada é nunca ter entrado na história: não ficar no mar, não ficar na praia, quando a tempestade se forma sobre Fernando de Noronha.

A geografia ajuda a explicar por que a lenda pegou justamente ali. O arquipélago fica isolado no meio do Atlântico, exposto a correntes fortes e mudanças bruscas de tempo, e sua história de naufrágios é anterior a qualquer relato sobrenatural; marinheiros que cruzavam aquelas águas sabiam, muito antes de ouvir falar da rainha-caveira, que uma tempestade ali podia ser sentença de morte sem intervenção nenhuma de fantasma. A Alamoa não inventa o perigo: empresta rosto e motivo a um risco que já existia, transformando o acaso cego de uma tempestade em punição com propósito. É mais fácil temer uma vontade do que temer o nada, e é isso que a lenda oferece a quem navega ou pesca por ali: uma explicação para o naufrágio que não seja apenas o mar, indiferente, fazendo o que sempre fez.

Aparência física

Loira de olhos azuis, coberta de joias, a imagem de uma rainha europeia transplantada para uma gruta tropical. Some por completo no momento da virada: a beleza dá lugar a uma caveira com a pele derretida escorrendo sobre os ossos, sem transição visível, sem aviso.

Comportamento e hábitos

Manifesta-se exclusivamente durante tempestades no mar ou nas praias ao redor de Fernando de Noronha. Aborda náufragos e viajantes oferecendo abrigo do temporal, conduz até sua gruta e expõe o tesouro. Espera, não força ninguém a pegar o ouro. A transformação e a punição só ocorrem depois que a vítima já escolheu carregar o que não é seu.

Como aplacar

Nenhuma oferenda, ritual ou acordo é registrado nas fontes. A Alamoa não negocia trégua.

Fuga e fraquezas

Nenhuma fraqueza ou método de fuga é descrito. Quem entra na gruta e recolhe o tesouro não encontra mais a saída, o relato não registra um único caso de escape.